sábado, 15 de março de 2014

MORENA DOS OLHOS D’ÁGUA

Aprendi com minha mãe que a alma, aquilo que não vê e não se encontra no corpo humano, esta na verdade nos olhos. Ela me dizia, os olhos dizem muita coisa, sobre o que as pessoas são na verdade. Fico sempre a pensar neste ensinamento de minha mãe. Ela tem toda a razão. São nossos olhos, catalizadores e transmissores de sentimentos. Por isto algumas pessoas tem dificuldades (inconsciente ou não), de conversar olho no olho. Eles dizem muito.

Chico em sua obra a varias canções em que usa e abusa dos Olhos como tema. Olho nos Olhos, Carolina, são uma destas em que o compositor expõem o olhar como central para contar uma História através da Música. Ele delineia personalidades, atitudes, tendo as lentes dos olhos como porta voz ou cartão de visita de uma pessoa. Os olhos servem para observar. Nas letras de chico atravessam fronteiras, vaticinam uma relação amorosa, denunciam uma ditadura.

Morena dos Olhos D’Água, foi gravada no segundo disco de Chico em 1966. Era a fase lírica do poeta. Com três personagens, a Morena, o pescador ou marinheiro seu amor e o narrador o próprio Chico, demonstra a linguagem metafórica que ainda não tinha florescido, mas que já estava embutida na obra. A tristeza da Morena, olhando para o mar, talvez o duplo sentido, de um Amor distante ou um mundo cheio de amarguras. São os olhos dela que chamam a atenção dos outros personagens.


Link do Vídeo: http://zip.net/brmNwr .

segunda-feira, 10 de março de 2014

ANA DE AMSTERDÃ

Chico e o Cineasta Rui Guerra, moçambicano de nascimento, fizeram varias parcerias. Mas a mais significa foi o texto Calabar: O Elogio da Traição. Chico inicia nesta época, inicio dos anos 70, a escrever por metáforas, para driblar a terrível censura da ditadura militar. Foi assim com Calabar. Mas deu certo. Os Militares tesouraram a montagem do texto para Teatro com o único argumento o CALABAR, para eles o cifrado de cala boca.

Até pode ser que a ideia fosse esta. Mas Calabar é o sobrenome do Português Domingos Fernandes, que traiu a coroa Portuguesa e se juntou aos Holandeses que aqui se portaram no século XVII. Os Holandeses perderam e deixaram o País. Calabar preso, torturado e morto pelos Portugueses. 

Sem dúvida a peça é um recado direto aos Militares e sua traição ao País, quando vilipendiaram a Democracia e a Liberdade. O espetáculo, o disco, foram censurados em 1974 e só liberado em 1980. Mesmo assim Chico gravou a canção no disco que fez com Caetano gravado ao vivo em 1972.

Ana é uma prostituta das docas do Recife ocupado pelos Holandeses. Vivi desta profissão. Dorme com todos e todas. Sofre toda sorte de violência. Chico Buarque e o tema da Mulher objeto, vitima do machismo, massificada como artigo de sexo. Na peça Ana de Amsterdã, protagonizara uma cena de Amor com Barbara, que Chico também fará uma canção.

Link da Canção: http://zip.net/brmKX1


BARBARA

Mais uma canção, cujo é tema é o Homossexualismo ou mais exatamente o lesbianismo. A Ditadura Militar desenvolvia um Moralismo Católico Conservador e extremamente hipócrita. Ao mesmo tempo que condenava, o sexo entre iguais, torturava e matava nos quartéis, transgredindo um dos mandamentos: não matarás.

Chico Buarque e Ruy Guerra, foram a pedra no sapato do General Médici e seus Censores. Calabar, o Elogio da Traição, a peça, trazia uma trilha sonora, que o tempo todo sacudia estas bases moralistas e políticas. A ponto do disco ter sofrido vários cortes nas letras e o espetáculo ter sido censurado e só liberado seis depois.

Bárbara, é a personagem feminina que se apaixona por Calabar. Mas nas idas e vindas, vai ter um caso com a prostituta Ana de Amsterdã. Chico escreve uma letra sensível, com cenas claras de sexo entre as duas. A canção é cortada por diálogos, entre as mulheres. Caricias são reveladas. Afeto é distribuído e Erotismo escancarado. Uma canção linda cheia de malicias e alegria.

Bárbara, sofreu um ordem da Censura: Este trecho “ E mergulhar no poço escuro de nós duas”, foi na gravação abafado por aplausos.


Link da Canção: http://zip.net/bkmKLn .

CALA A BOCA, BÁRBARA

Calabar, o Elogio da Traição, teve varias motivações, inspirações e até homenagens. Uma delas é a personagem Bárbara. Uma índia, moradora do Recife se apaixona por Calabar. Na verdade Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra, prestam uma honraria, ao Guerrilheiro Carlos Lamarca e sua companheira Iara Iavelberg.

Lamarca desertor do Exército, se envolve na Guerrilha contra a Ditadura, conhece e Iara e ela vai se transformar em sua cara metade até a morte de ambos em 1971. Cala Boca, Bárbara, mostra que uma relação de Amor, extrapola a relação marido e mulher.

Barbara faz uma ode aos seu amado. Relembra que sua cumplicidade não se dá apenas na cama, mas na luta contra o opressor, o ditador de plantão. Os versos denotam de uma poesia profunda, mostram uma mulher longe de ser submissa, participativa, comprometida com a luta de seu companheiro, que também era a sua. A delicadeza é toda presente na letra, extrapola no refrão.

E aí Chico, coloca a repressão como algoz do Amor. O Cala Boca, Barbara do refrão, é a mão pesada da Ditadura que matou e calou Lamarca e Iara. Esta música me faz identificar com o Capitão e sua Amada. Quando penso em minha relação de vinte e quatro anos, com a Nadir, percebo que o Amor é um elixir Revolucionário.


Link da Canção: http://zip.net/bxmLxR .

CAROLINA

O que é o passado? Para que ele serve?. Um sentimento nostálgico, atravancar a modernidade?. A História é presente ou é dialética, o acumulo do passado?. A Nostalgia deve ser necessariamente triste e criar um sentimento de apatia e paralisia?.

A canção Carolina de Chico Buarque, nos remete a responder a estas questões. Outra delas é porque o personagem melancólico é uma mulher?. E porque ver a vida pela Janela?. Chico em sua fase lírica e nostálgica, trabalha a linguagem da metáfora. Tempos duros de ditadura e saudades da Democracia?. A moça, um símbolo da submissão feminina?. A Janela o confinamento de um tempo que não volta mais?.

Perguntas, que esquentam o debate sobre o Chico que ainda se descobria, mas que estava preso ao Samba Canção e os primeiros tempos da Bossa. Tanto que os Tropicalistas não pouparam criticas na época. Caetano até gravou a música, de forma debochada. Carolina fecha o ciclo de um Chico Lírico e que a partir de então se abre para novos horizontes. Mas o Universo Feminino esta incutido nela.

Há quem diga que Chico Buarque não gosta muito desta canção. Em 1967, ele teve uma pendenga com a Globo. Já critico da Televisão como veiculo de alienação de massas, Chico rompeu um contrato de fazer um programa na emissora, bem como de pagar a multa por isto. 
Aí a Globo, lhe propôs inscrever uma canção no II Festival Internacional da Canção. Segundo o autor, a concebeu dentro de um avião.

Carolina, ficou em terceiro Lugar naquele FIC e foi defendida pelas irmãs Cibely e Cinara. Foi grava no LP Chico Buarque Vol.3 de 1967.

Link da Canção: http://zip.net/bbmKHL .


GOTA D’AGUA

A sociedade Grega dos tempos antigos, era patriarcal e machista. As mulheres eram menores que os animais. Sua função era apenas a reprodução, para alimentar a terra de soldados para a Guerra. No entanto a mitologia, subvertia a ordem, e criava personagens femininas decisivas no contexto Histórico. Helena de Tróia é um dos exemplos.

Gota D’Agua, o espetáculo Teatral é uma adaptação de um destes mitos gregos. Conta a tragédia de Medeia, que mata os filhos e se suicida após descobrir que seu amado, o Guerreiro Jasão, tinha uma amante. Como toda boa tragédia grega, a dramaticidade e a dor se espalha durante o texto, mas mostra uma mulher que comete os crimes para se vingar de seu marido.

Chico Buarque e Paulo Pontes, vão transformar a Tragédia de Medeia, em um drama Brasileiro. A linguagem cifrada e metafórica, esta embutida do começo ao fim do texto. O objetivo era atingir a Ditadura Militar, transbordar o fim da paciência, com a repressão. Joana a Medeia do texto, mulher sofrida do subúrbio do Rio de Janeiro, vê sua vida despencar quando é trocada por uma mulher rica e seu marido a abandona.

A solução de morte, tem duplo sentido no texto. A primeira a do assassinato e do suicídio, como um caso passional. A segunda, o recado real dos autores, é a critica política e social do texto. A Música que vai se destacar, é a do titulo do espetáculo. A estrofe final é um aviso aos Ditadores: “ Deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa. E qualquer desatenção, faça não, pode ser a Gota D’Agua”.

Gota D’Agua, esta no disco da Trilha, de 1975, onde Bibi Ferreira, a Joana, a Interpreta. Mas Simone e Maria Bethânia irão popularizar a canção.


Link da Canção: http://zip.net/bxmLxx .

OLHOS NOS OLHOS

Olhos nos Olhos, é uma canção, mais uma do cancioneiro Buarquiano, que vai fundo nos sentimentos e na alma feminina. Já na primeira estrofe, a mulher narradora, ao ser rejeitada por seu amante, admite a dor, mas como sempre fez obedece. Chico traduz nestes primeiros versos, o habitual cultural da mulher Brasileira, a submissão.

Mas a partir da segunda estrofe, a mulher antes dominada, da a volta por cima, cura as feridas e se apresenta renovada, pronta para enfrentar as dores do mundo, inclusive a volta do amante que a abandonou. A narradora trabalha esta retomada de vida, não como vingança, mas como afirmação de que viver é preciso e amar, uma duas vezes ou mais também.

Olhos nos Olhos foram feitos para Maria Bethânia interpretar. Chico conta que o fato, dizendo que ao escrever uma canção para Teatro ou Cinema, sempre pensava na Atriz ou Ator que interpretaria tal personagem, cuja música teria que fazer. Olhos não foi feito por encomenda, mas o caráter dramático da canção, só podia ser pensada em Bethânia.

A Música, esta no disco Caros Amigos de 1975.


Link da Canção: http://zip.net/bqmLdS .