domingo, 30 de março de 2014

COTIDIANO

Em 1971, a barra estava pesada no Brasil. O regime militar endureceu, o pau literalmente comeu. A censura estava muito mais cruel que no período anterior ao AI5. As denuncias de torturas, desaparecimentos, assassinatos eram frequentes, mesmo com a imprensa amordaça. O País vivia dias dúbios. Um País retratado na propaganda ufanista e de crescimento na telinha da globo. E o País real, da total falta de Liberdade e Democracia.

Chico Buarque voltava de seu exilio na Itália. Apesar de lá nascer sua primeira filha e ter tido uma produção artística, Chico sabia que enfrentaria o terror no Brasil e era aqui que deveria viver e claro cantar. A fase Lírica de Chico parece que já tinha chegado ao fim. Apesar de Você, que a Ditadura levou um tempo para descobrir que não se tratava de uma canção de Amor, alçava o compositor ao sucesso e novamente ao dialogo com o povo.

Chico vai adotar como forma de relação com seu público, a linguagem cifrada, simbólica e de metáforas. Precisava disto para driblar a censura e fazer com que sua mensagem fosse refletida e debatida. Usando e abusando da língua portuguesa, o compositor chegou muitas vezes a perfeição.

Cotidiano, este samba, pode ser interpretado de duas maneiras. A primeira como se lê. Trata-se do dia a dia de uma mulher e seu casamento. A narração é Masculina. A esposa dedicada, pronta desde as primeiras horas do dia a servir seu homem. A velha formula do casa, cama, mesa e banho. Aqui a questão de Gênero é explicita. A cultura da seleção natural, onde a mulher tem o papel de cuidar do marido, quanto a ele o de sustenta-la.

A segunda, mais metafórica ainda, pode denotar uma critica aqueles dias de chumbo. O companheiro tentando se comunicar com sua companheira. Transpor a ela suas angustias e medo e ela o acolhe, cuida e o orienta. Protege dos perigos, do mal, da exploração patronal, da policia. Aqui o papel da Mulher, com sua sensibilidade a flor da pele, capaz de promover o sossego do Homem, o recarregar as energias para enfrentar o Cotidiano.

Cotidiano, esta no LP Construção de 1971.


Link do Vídeo: http://zip.net/bjmXtF

sábado, 22 de março de 2014

ROSA DOS VENTOS

Rosa dos Ventos, é o nome que se dá a uma imagem que determina os quatro sentidos fundamentais e intermediários. Utilizado a séculos na Industria Náutica, foi usado e abusado, durante a era do Descobrimento e das Navegações pelos colonizadores das Américas e do Terceiro Mundo. Mas hoje ainda é utilizada pela moderna indústria Naval.  É por este desenho que se descobre o humor dos mares, Rios e sua relação com o vento e possibilidades de maremotos e outros.

Chico Buarque de Holanda vai escrever Rosa dos Ventos, em um contexto de endurecimento da Ditadura Militar. O AI5 de treze de Dezembro de 1968, mexe com a produção cultural e musical do compositor. Já no exilio na Itália Chico vivia as turras com a Gravadora e já não queria escrever o lírico poético. Primeiro rompeu com a RGE e assinou com a Philips. 
Recebeu um adiantamento e com o mesmo produtor dos dois primeiros discos, fez Chico Buarque nº.04. Segundo era 1969, porrada nos porões e censura pegando pesado. Chico anima-se e faz a mudança em sua obra.

O Disco quatro é a virada Buarquiana. A linguagem metafórica, começa a surgir, como recado de Protesto, contra a Ditadura Sanguinária. Rosa dos Ventos é a canção mais forte do disco. Com uma conotação feminina, ela aponta que os ventos, destroem o Amor e criam o medo. Mas a mesma Rosa vira o tempo, e traz mudanças e esperanças.

Rosa dos Ventos será o titulo de Álbum gravado ao Vivo por Maria Bethânia em 1971.


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ELA FAZ CINEMA

A arte imita a vida?. Creio que sim. Como dizia o velho Marx, nada se cria sem a matéria, o concreto. A História é o concretismo da vida, a matéria prima para o ser humano viver sua saga rumo a felicidade. Então a Arte usa a vida real como sua matéria prima, seu produto para criar ficção, magia e fantasia. Quantas Histórias, se são lendas ou não, viraram cinema, música.

O Amor é desta matéria que o criador de Arte se apropria. Um dos novelos mais utilizados pelas artes, é o Amor quase impossível. A distancia social é uma das mais exploradas. Já vimos, lemos e escutamos, através destas lentes, dos livros, dos palcos e dos discos, dramas, tragédias, mesmo comédias, colocando obstáculos entre um Homem e uma Mulher, em função do Status de um sobre o outro.

Chico Buarque toca nesta divisão de Classes Sociais, em Ela Faz Cinema. O narrador, pode ser um operário de fábrica, da construção civil, ou meramente um fã de uma Atriz de Cinema. Este Amor, não fica claro se tratar do Amor carnal, ou mesmo das fantasias de um admirador. Mas as diferenças sociais são nítidas. Esta Bossa Nova, também pode ser uma homenagem de Chico á duas das mulheres de sua vida. A Atriz Marieta Severo, mãe de suas três filhas e de Silvia sua filha mais velha também Atriz.

Rodeado de Atrizes, ele já tinha tocado no assunto em Beatriz feita com Edu Lobo, para o espetáculo Grande Circo Místico nos anos 80, Ela Faz Cinema, esta no disco Carioca de 2006. A canção vai inspirar o Argentino Alan Pauls, em um Conto “O Direito de Ler enquanto se Janta Sozinho”, de uma coletânea de contos baseada em obras de Chico Buarque de Holanda. A rede Globo em 2011, colocou no ar a Minissérie, O Amor em Quatro Atos, também baseada em canções do compositor. Ela Faz Cinema é o primeiro episódio.


Link do Vídeo: http://zip.net/bwmRCD .

ATRÁS DA PORTA

Uma das primeiras canções feitas em parceria com Francis Hime. Eles vão fazer dezenas e quase todas sucesso. Esta segundo Chico Buarque começou a ser composta em Petrópolis. Francis lhe mostrou a melodia e ali mesmo ele já foi trabalhando a letra. Ocorre que se bebia muito naquele dia. Foi para casa tentar termina-la. Mas como várias de suas canções, fez Atrás da Porta, pensando em Elis Regina Interpretando, como já tinha feito isto, como Nara, Bethânia e outras.

Foi com Elis cantando os versos feitos que Chico Buarque terminou de vez, esta fantástica Canção. Caetano Veloso, ao assistir o Show Falso Brilhante de Elis Regina, escreveu um texto para o extinto Jornal O Pasquim, sobre a interpretação da Cantora. É como se a História de uma separação mal resolvida, teria sido realmente incorporada por Elis ao cantar olhando e chorando para seu marido Cesar Camargo Mariano que a acompanhava ao Piano.

Atrás da Porta, é exatamente mais uma faceta do entendimento de Chico sobre as Mulheres. Uma letra cuja separação é dor profunda, mistura um sentimento de vingança, mas depois traz para fora o Amor ainda existente e a vontade constante de prova-la ao seu ex parceiro. Mesmo na humilhação, a Mulher busca sensibilizar e não desistir. As Mulheres retratadas por Chico, são fortes mesmo na dor.

Elis Regina gravou a canção em 1972.


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O MEU GURI

Meu pai tinha um bar no inicio dos anos 70. Lá frequentava um garoto de uns 14 anos, negro, pobre, que morava com a mãe. O pai um desconhecido. Virava e mexia este garoto cujo apelido era Chouriço, sumia. Quando voltava, vinha todo arrebentado, dizendo que ficou pendurado no “Pau” de Arara dos Homi. Sua mãe toda vez, que a policia o levava, o procurava de delegacia em delegacia. Um dia ela nunca mais o procurou.

Chico nesta canção, adianta uma situação social da qual convivemos com muita maior intensidade nos dias atuais. A desigualdade social, agravada pela concentração de renda, cria os bolsões de miséria, locais propicio para o crime organizado, arregimentar seus soldados. Em 1981, ainda não tínhamos leis de proteção aos adolescentes, como o ECA.

Uma letra linda, onde uma mãe fala de seu filho, de forma que ele se transformou em um cidadão. Mãe é aquela cujo amor, transcende o caráter, a personalidade da pessoa. Mãe ama e pronto. Chico Buarque, apresenta um personagem feminino que em sua simplicidade e pobreza, imagina um mundo ideal ao seu Guri, mesmo que, sua realidade seja o contrario.

O Guri da música, trata-se de um garoto morto pelo sanguinário delegado do Dops Sergio Paranhos Fleury. A partir deste fato, surgiu o esquadrão da morte. Entidade para militar, clandestina e ilegal, que perseguia e matava, fazendo “justiça”, com as próprias mãos.

O Meu Guri, esta no LP Almanaque de 1981.


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MINHA HISTÓRIA

A singeleza na poesia de Chico Buarque, quando mergulha no Universo Feminino, nos me emociona, nos empolga a Amar mais e mais as Mulheres. Chico transporta para música, a magia feminina, a força de superar dores e dificuldades é maravilhosa nas letras do compositor.

Minha História é destas canções, narrada por um filho, muito parecida com a temática de O Meu Guri, feito anos mais tarde. Trata de uma realidade a qual convivemos até hoje. As desigualdades sociais, geram situações de miséria, fome e famílias desestruturadas. Convivemos com realidades, como a da música, que maridos abandonam sua família e cabe a mãe criar seus filhos.

Chico Buarque quando esteve exilado na Itália, conheceu o compositor Lucio Calla. Tornou-se seu amigo. Foi lá que ouviu e teve a ideia de fazer a versão de Gesú Bambino. Interpreto a referencia ao menino Jesus, a definição de identidade do Cristo, com milhares de crianças abandonadas a própria sorte, vivendo nas ruas e no Trafico de Drogas.

Não deixava Minha História, de fazer critica metafórica a Ditadura. Vivíamos os tempos eufóricos e mentirosos, do milagre econômico, do Brasil Ame ou Deixe-o. Na verdade os Militares colocavam em marcha uma politica cada vez mais de concentração de renda e com isto, a pirâmide social se formava, com mais de 80% da população formada por pobres.

Minha História, foi composta em 1970, ainda na Itália. Mas gravada no disco Construção de 1971.


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YOLANDA

Yolanda é uma canção de Amor, de um poeta a sua mulher e filho. O Cubano Pablo Milanes, do qual Chico Buarque se tornou amigo, fez a canção para sua esposa, que se chama Yolanda. Certa vez, o compositor precisou sair em viagem. Deixou a ilha de Cuba, com o coração apertado de saudades. Voltou já com letra e melodia, de uma das músicas mais gravadas e tocadas mundo afora de Milanes.

Chico, se sensibilizou com a História do amigo e fez a versão em Português. Não é mistério para ninguém a simpatia de Chico Buarque com o Socialismo em Cuba e com a cultura Cubana. A letra não só foi fiel aos sentimentos de Milanes no original, como nos faz viajar nesta canção de saudades e de declaração de Amor. Viajei muito por um tempo. Sei o que é este negócio de se viver longe de quem se ama.

Yolanda foi gravada no Disco Desejos de Simone de 1984. Uma versão com Chico e Simone cantando Juntos, esta em um Disco intitulado Duetos de 1984, onde Chico divide suas canções com vários interpretes.


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