terça-feira, 4 de março de 2014

BEATRIZ

O Grande Circo Místico é um poema que Jorge de Lima, escreveu em 1938, baseado em uma fato real, vivido no século XVIII na Áustria. Surrealista, os versos trabalham a História de um médico da corte, cujo filho não quis seguir a carreira do pai. Casou-se com uma equilibrista, e juntos fundaram um circo. O poema passeia pelo universo circense, usando e abusando do surreal, pois é assim que interpretamos a fantasia das artes.

Quarenta e cinco anos depois, Chico Buarque e Edu Lobo, em mais uma parceria, fazem a Trilha Sonora, do balé  O Grande Circo Místico. O trabalho foi feito por encomenda, de uma companhia de Teatro do Paraná. Chico vai comentar, que quando se escreve por encomendas, a vontade de modificar e criar é maior ainda, pois te faz sair da acomodação típica de quem apenas adaptaria um poema para os palcos.

Beatriz, uma das canções mais lindas da obra de Chico e uma das melhores parcerias que ele já fez em sua carreira. Críticos da época em que o espetáculo estreou diziam de a sintonia dos dois compositores era tanta, que as canções saiam feito Música (uma redundância, mas neste caso vale).

Ao escrever a letra Chico transforma a equilibrista Agnes do poema em Beatriz e uma Atriz. 

Nos joga no mundo das mulheres do palco, seu cotidiano, o affaire, as vaidades, as dificuldades, as viagens que uma Atriz provoca na imaginação das pessoas. O cuidado do espectador com seu ídolo, é mostrado na linda letra, de uma valsa de Edu Lobo.

Beatriz foi lançada no disco O Grande Circo Místico em 1982, interpretada magistralmente por Milton Nascimento.


Link do Vídeo: http://zip.net/bdmGL8 .

VALSINHA

A casa do Sociólogo Sergio Buarque de Holanda, autor do clássico Raízes do Brasil, tanto no Rio de Janeiro, como em São Paulo, fervilhava conhecimento e arte. Manoel Bandeira, Caio Prado Júnior e toda a intelectualidade daqueles anos 50, frequentavam a casa dos Buarque de Holanda. Entre eles o poeta e na época diplomata do Itamarati Vinicius de Moraes.

O quarto filho, da família o Francisco, acompanhava de perto, o papo daqueles homens de ciência, com muita atenção. Mas foi com Vinicius que o garoto, nutriu uma amizade duradoura, até a morte do poetinha em 1980. Com Vinicius Chico, viu o surgimento da Bossa Nova, da poesia romântica e ouviu dele sua predileção pelo concretismo.

Antes desta Valsa, Chico tinha feito com Vinicius de Moraes, a letra para a melodia de Gente Humilde do violonista Garoto. Uma letra engajada socialmente. Mas foi com esta canção que mais uma vez o Universo Feminino aflorava em Chico Buarque.

Foi de Vinicius a melodia. Restava a Chico a Letra. Era 1970, Chico ainda na Itália e Vinicius viajando pela América do Sul. Troca de correspondências entre os dois poetas, tratava de concluir a letra. Vinicius trabalha a concepção de um casal e clima Hippie. Chico contesta e diz que trata-se de um Bancário que surpreendentemente chega em casa, sem irritação e todo pronto para receber e dar ternura.

A Mulher esta sempre pronta a viver aquele amor com afeto e claro tesão, toma a iniciativa, o envolve tanto em sua magia de amante, que os dois saem a bailar pela praça e não hesitam a se beijar, se abraçar e a se amar, feitos loucos, entre gritos e roucos (sussurros), na frente de todos.

Estávamos nos tempos mais duros da Ditadura. O final da bela valsa não podia ser diferente. O desfecho é de finalmente a Paz, tinha chegado ao casal, uma metáfora, de que povo livre, faz Revolução. Valsinha vai ser gravada por Chico no LP Construção de 1971.


Link do Vídeo: http://zip.net/bwmGgX .

SEM AÇÚCAR

O Machismo segundo Fidel Castro era nos anos 70 e 80, o principal problema da Ilha de Cuba. Dizia ele para o livro de Frei Betto, Entrevista com Fidel, que o embargo econômico imposto pelos Americanos á Cuba era tão terrível, como a imposição do Homem sobre a Mulher.

Mas este não é um problema apenas da Ilha. Recentemente em uma comissão de trabalho da Câmara dos Deputados em Brasília, um projeto de lei que colocaria no currículo escolar, a disciplina de Gênero, foi amplamente debatida. O que chamou á atenção foi a posição de um grupo conservador de Católicos, que se opõem ferrenhamente a esta inclusão.

Na opinião deste grupo fundamentalista, Deus através da Bíblia não estabelece ou reconhece Gênero e sim a superioridade masculina sobre a feminina. Posição retrograda e nojenta, ainda se sobressaí na sociedade Brasileira. A violência doméstica, é um sintoma do Machismo imposto como cultural no Brasil.

Chico Buarque em 1975, escreve Sem Açúcar. Em uma entrevista o compositor explica que muitas vezes escreve canções primeiro pensando em quem vai interpreta-las, pelo caráter emocional que a letra e a melodia expõem. Esta canção segundo ele tem um grau de dramacidade, que só Maria Bethânia poderia gravar e cantar.

A letra traduz uma mulher extremamente submissa ao seu esposo. O Machismo é praticado em sua exaustão. O que se interpreta é a aceitação da Mulher a esta situação, incorporando as maldades do macho a seu cotidiano cultural. Sem Açúcar esta no LP Chico Buarque & Maria Bethânia ao Vivo, de 1975.


Link do Vídeo: http://zip.net/bymG2s .

COM AÇÚCAR COM AFETO

Inicio hoje uma nova serie de analises musicas. Durante todo o mês de março, postarei canções de Chico Buarque de Holanda. Trabalharei o que se convencionou-se chamar de Universo Feminino do Chico. Selecionei mais de uma centena de canções, que retratam o cotidiano das mulheres, suas relações de Gênero, comportamento e o que pensam.

Escolhi Chico e sua relação com as mulheres através das letras de sua obra, por duas razões. A primeira que março é o mês dedicado a reflexão sobre as mulheres, sua condição e presença no mundo. A segunda, pelo fato de Chico Buarque de Holanda, ter sido um dos artistas que ofereceram através de sua arte, uma das maiores resistências ao Golpe de 1964 e o que ele criou, uma longa ditadura de vinte e um anos, cujo este 2014 completa cinquenta anos do inicio da longa noite.

O Universo Feminino de Chico, tem algumas fases. A primeira no inicio da carreira, onde Francisco ainda não era o politico engajado e sim o moço de canções líricas, confundidas muitas vezes com alienadas, algo que passou longe de ser. A segunda militante, colocando o debate de Gênero e de luta contra o regime ditatorial. A terceira vivida nos dias atuais, versa de forma poética, de afeto e ternura, e aponta uma mulher em busca de igualdade.

Esta canção esta no Disco Chico Buarque de Holanda Vol. II de 1966. Foi feita a pedido de Nara Leão, que queria uma canção que fala-se de um amor sofrido e submisso. Após chegar de uma noitada o amante, tenta convencer a Mulher de seu amor por ela. Mesmo ferida e maltratada, vai para o fogão, lhe preparar o jantar. Discussão aberta de Gênero.


Link do Vídeo: http://zip.net/bdmGLw

domingo, 19 de janeiro de 2014

ALÔ, ALÔ MARCIANO

A Sabedoria Popular, vinda do universo dos pobres, nos traz expressões e frases hilariantes e engraçadas. Esta sabedoria, pautada na História muitas vezes oral do povo, baseado em sua condição social e do ambiente em vive nos faz refletir sobre várias questões entre elas, a das classes sociais. Quem já não ouviu frases do tipo “ O ultimo será o primeiro”, “O Apressado come Cru”, “Cão que muita late, não morde”, e muitas outras frases que ilustram uma situação vivida ou um pensamento.

Após as manifestações de Junho, onde milhares de pessoas foram as ruas protestar, ficou claro os grupos que ali estavam, e os interesses de cada um. Na primeira parte dos protestos, os pobres e as organizações populares, levantavam bandeiras de qualidade de vida e mais politicas públicas. O personagem destas manifestações, eram operários, donas de casa, estudantes pobres, negros e amarelos. Já a segunda parte, altamente estimulada pelas mídias trazia outros personagens e outras bandeiras. Neste ínterim, as palavras de ordem eram o apartidarismo, o ódio aos diferentes e a violência justificando a violência. O personagem de classe média alta, com seus Ipods e Tablet, chegando na Avenida Paulista, com seus carros importados.

Destas manifestações saiu a definição de Coxinhas, para o segundo grupo. Aquele cara que nunca se preocupa com o que acontece aos seu redor, desde que não mexa com seu status e bolso é claro. Aquele que justifica sua condição social, a chamada teoria da seleção Natural, a mesma que criou o Nazismo. A falta de compromisso dos Coxinhas, já foi assunto de teses, textos e música. Uma canção que define bem os Jovens de Classe Média, que tem um discurso superficial e que reproduz discursos da mídia, é a de Max Gonzaga. Clic aqui e ouça: http://zip.net/bkl7WK .

Mas Rita Lee e Roberto de Carvalho, já tratavam do assunto quatro décadas atrás. Alô, Alô Marciano, estourou nas paradas de sucesso em 1980, na interpretação de Elis Regina, tratava o tema como muito humor e ironia. A high society, era como os autores definiam a Classe Média do discurso decorado e conveniente a sua condição social e ao mesmo tempo alienada com o que se passava no País naquele período. High Society tradução que quer dizer Alta Sociedade ou Alta Roda, nada mais era do que a gíria popular daqueles tempos duros.

O Regime Militar embora já demonstra-se naquele anos 80, seu esgotamento, ainda fazia estripulia. Rita e Roberto, vão de certa forma cobrar e denunciar dos bem nascidos e vividos, um engajamento e comprometimento desta classe social na luta contra a ditadura. Naquele momento víamos uma grande crise econômica, causando uma das piores Recessões de nossa História e os autores diziam que a Classe que podia ajudar era Down, triste, porque se acomodava ou se beneficiava com a situação.

Alô, Alô Marciano, esta no disco gravado ao vivo Saudades do Brasil o penúltimo e ultimo lançado em vida por Elis Regina. Clic e ouça: http://zip.net/byl4K3 .
Alô, Alô, Marciano (Elis Regina)
Alô, alô, marciano
Aqui quem fala é da Terra
Pra variar estamos em guerra
Você não imagina a loucura
O ser humano ta na maior fissura porque
Tá cada vez mais down o high society
Down, down, down
O high society
Alô, alô, marciano
A crise tá virando zona
Cada um por si todo mundo na lona
E lá se foi a mordomia
Tem muito rei aí pedindo alforria porque
Tá cada vez mais down o high society
Down, down, down
O high society
Alô, alô, marciano
A coisa tá ficando russa
Muita patrulha, muita bagunça
O muro começou a pichar
Tem sempre um aiatolá pra atola Alá
Tá cada vez mais down o high society
Down, down, down
O high society
Alô, alô, marciano
Aqui quem fala é da Terra
Pra variar estamos em guerra
Você não imagina a loucura
O ser humano ta na maior fissura porque
Tá cada vez mais down o high society
Down, down, down
O high society



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

CAÇADOR DE MIM

Em 1981, vivia um de meus infernos astrais. A vida é feita deles. Quem não termina o ano, o mês ou o dia, não se achando, aborrecido e ao mesmo tempo em busca de saídas. Estava desempregado, não tinha grana nem pro rolezinho. Estava com dezenove anos, e prestava o serviço militar obrigatório. Foi dureza, fazer seis de tiro de guerra. Não via e não vejo nenhuma razão para se obrigar um jovem ao alistamento militar. Quem decide pela carreira, ainda tem sentido.

Vivia momentos afirmação de personalidade. Sofria de Amor constantemente. Mas a barra estava pesada. Ficar sem emprego, é não conseguir vislumbrar futuro algum. Minha vida limitava-se a turma do Bairro, na mesma situação que a minha. Isto trazia um certo conforto. Quando se é Jovem, é comum milhares de questionamentos existenciais. Me debatia com eles, sofria toda a vez que não encontrava as respostas. A música como já revelei aqui, era o elixir, capaz de me acalmar e ir buscando alternativas reais para o inferno astral.

Ao ouvir Caçador de Mim, do Luís Carlos Sá, parceiro do Guarabira, com o músico Sergio Magrão, em uma destas noites de insônia, ouvi a letra e cantei a melodia. Um exercício que aprendi, desde aqueles tempos. É quando você não cantarola, deixa a letra penetrar nos ouvidos e atingir o coração. Quando seu corpo reage aquelas palavras e aquela melodia que você sussurra para ti mesmo. Sai daquela experiência querendo ouvir outras canções e outros discos da mesma forma.

Sempre gostei de Milton Nascimento, como compositor e como interprete. Milton escreve o interior humano, com tinturas de realidade. E mesmo quando a canção não é escrita por ele, é como se o poema fosse escrito pelo cara. Ouvi de um dos últimos discos do Bituca E a gente Sonhando. Neste discão Milton volta as origens dos tempos de sua cidade Natal Três pontas. E também faz a sua versão de o Sol do Jota Guest. Querem saber melhor que o original. Ouçam aqui: http://zip.net/bql7Lf .

Caçador de Mim, traz as duvidas de um personagem. Sua incessante incomodacão com o fato de tentar seu espaço na vida. A constante busca por uma identidade. Um ser humano que aceita a dialética da vida, que sabe que terá amores e os perderá. Um ser que admite ser manso e também ser feroz. Mas que não teme a luta, embora tenha medo. Um ser que acredita nos sonhos e no viver a sonhar.

Vejo que somos constantemente caçadores de nós mesmos. Todos querem ser felizes, não há uma forma ou modelo para ser feliz. Por isto corremos atrás, somos seres em mutação. O ser humano é capaz de romper lógicas, formulas prontas, porque é um ser criativo e por isto sempre em transformação.

O disco de 1981, fez grande sucesso, inclusive esta obra prima. Clic e ouça: http://zip.net/bql7Lm .

Caçador de Mim
Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim
Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim
Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir as armadilhas da mata escura
Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

ESPANHOLA

Em 2009, músicos do Estado de São Paulo, começaram um movimento, questionando a funcionalidade da OMB- Ordem dos Músicos do Brasil- . Na verdade a grita geral entre os artistas, consistia no fato de vários locais que contratam Shows, principalmente poderes públicos exigiam que o musico, tivesse a carteira de “sócio” da Ordem. Sem este documento, não se apresentava em vários lugares.

Tal fato foi considerado uma tremenda injustiça com a classe. A OMB foi criada pelo Regime Militar. Sua função era na prática, não há defesa da categoria, mas uma espécie de censura prévia aos artistas, principalmente os de oposição á ditadura. O órgão, funcionou como delator daqueles que protestavam contra a repressão. Há registros de várias colaborações de dirigentes da OMB na época com os militares.

Com a redemocratização, a Ordem dos Músicos do Brasil, continuou tendo um papel distante das reivindicações e necessidades dos músicos. Se transformou em um organismo de ditar através da carteirinha, quem trabalha ou não no Brasil. Seu papel de fiscalizador das condições de trabalho e salário que por sinal precárias para a maioria dos músicos, principalmente quem toca na noite, não existe.

O movimento em 2009, ganhou muita força ao ponto de uma liminar expedida pela Justiça tirou em todo o estado de São Paulo a obrigatoriedade dos músicos em estar associados a OMB para poder trabalhar. Foi o Deputado Estadual Carlos Giannasi do PSOL, que entrou com ação solicitando a derrubada da exigência da Carteirinha. Neste mesmo ano, Giannasi esteve em Limeira em um evento cultural, falando desta luta vitoriosa. Por conta dela hoje em São Paulo, esta obrigação não mais existe.

Porem a situação da maioria esmagadora de quem vive de música no País é sofrível. Milhares tocam em bares, restaurantes, lanchonetes, que pagam mal, que mal dá para se sustentar. Ou tentam financiamento público para gravar seu trabalho, quase sempre não conseguem. Mas costumo dizer, que é nesta labuta de não ser pop star, que encontramos grandes talentos.

Espanhola é uma canção de Flavio Venturini e Gutemberg Guarabira, que me faz lembrar dos que vivem da noite. Nos anos 80 peregrinei por bares e boates da cidade que tinham música ao vivo. Esta linda canção de Amor, era sempre tocada e pedida. Flávio Venturini, mineiro, um dos integrantes do Clube da Esquina, sabe o que é tocar nos bailes da vida. Do Terço, passando pelo 14 Bis, e depois na carreira solo, o cantor compositor mostra em seu repertório o que se executa na lida dos músicos.

Espanhola esta no disco Nascente de 1981. O primeiro disco solo do compositor. Clic aqui e ouça esta pérola: http://zip.net/bjl51F .

Espanhola
Por tantas vezes
Eu andei mentindo
Só por não poder
Te ver chorando
Te amo espanhola
Te amo espanhola
Se for chorar
Te amo
Sempre assim
Cai a o dia e é assim
Cai a noite e é assim
Essa lua sobre mim
Essa fruta sobre o meu paladar
Nunca mais
Quero ver você me olhar
Sem me entender em mim
Eu preciso lhe falar
Eu Preciso tenho que lhe contar