domingo, 26 de maio de 2013

EU SOU APENAS UM RAPAZ LATINO AMERICANO

Sempre gostei de ir em bancas de Jornal, para garimpar publicações de musica, livros e cultura em geral. A banca IV Centenário, ao lado do relógio da praça Toledo de Barros, em Limeira, é minha favorita. Seu chico o dono da banca, me chamava pelo nome. Hoje quase não apareço por lá, mas repito o ritual de passar os olhos ou folhear revistas sobre o assunto na Banca de meu bairro. Foi em uma destas passagens pela IV Centenário, em 1976, que tive contato com a Revista Violão & Guitarra.

A publicação, trazia canções cifradas para os instrumentos que davam titulo a revista. Ela é um clássico do gênero. Conheço muita gente, músicos de qualidade que aprenderam a tocar musica através das notas musicais do periódico. Não me lembro, se era mensal ou semanal o numero da revista. Meu interesse era em primeiro lugar, conhecer letra de musicas que ouvia nas rádios e segundo um desejo de aprender a tocar violão. Uma das maiores preguiças de minha vida, é aprender a tocar. Não tenho paciência para sala de aula. Por fim, estes eram motivos.

Não tínhamos grana para comprar discos, e pouco que ganhava de meu pai, gostava de comprar as revistas. Um dos números trazia Belchior na capa, com casaco de peles, sorrindo e um boné na cabeça. O bigodão estava lá, com suas canções e uma delas era Eu Sou apenas um Rapaz Latino Americano. Belchior como compositor já era consagrado. Elis Regina e Vanusa já o tinha gravado e feito sucesso com suas canções: Como Nossos Pais, Velha Roupa Colorida, Elis e Paralelas com a Vanusa.

Mas foi Eu Sou Apenas um Rapaz, responsável para que o Brasil, conhece-se não só o brilhante compositor, mas o cantor. Voz grossa e grave, Belchior emplacou a canção nos Top 10, 05 e 01, das paradas de sucesso. Me lembro que antes de ir para a escola, estudava no Trajano Camargo naquele ano de 1976, na sexta serie, passei na banca e comprei o numero da Revista. Ao sair da escola, chovia muito e ao chegar no ponto de ônibus, onde hoje é a agencia da caixa econômica federal da Praça Toledo de Barros, não aguentei, tirei a revista da mochila e mesmo debaixo de chuva, fui direto ler a letra de Eu sou Apenas.

A letra é mais uma que coloca as angustias de um autor com seu cotidiano, de ditadura, de um povo pobre e de um país amordaçado. Já disse que Belchior é um compositor que melhor relata o intimo do Latino Americano. Na canção ele contesta Caetano Veloso e Gil, por conta da Música Tudo é Divino Tudo é Maravilhoso. Apesar da letra dos baianos, apresentarem o espirito da juventude da época, de protestar contra os desmandos do regime e ao mesmo tempo fazerem a ode ao estilo Hippie e psicodélico, Belchior naqueles anos 70, discorda de que tudo era maravilhoso.

Em 2010 me juntei ao Professor e Músico Claudio Corrêa e criamos o projeto A Palo Seco, uma banda para tocar canções de Belchior e com composições próprias trabalhar seu estilo. Tivemos vida curta, um Show e um Festival. Mas um dia a gente retoma o projeto, pois as novas gerações precisam conhecer este fantástico artista, da alma das Américas. Eu Sou Apenas Um Rapaz Latino Americano, esta no disco Alucinação de 1976.

Eu sou apenas um rapaz latino americano

Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes e vindo do interior

Mas trago na cabeça uma canção do rádio
Em que um antigo compositor baiano me dizia
Tudo é divino, tudo é maravilhoso

Tenho ouvido muitos discos, conversando com pessoas
Caminhado o meu caminho, papo o som dentro da noite
E não tenho um amigo sequer que ainda acredite nisso não
Tudo muda, e com toda a razão

Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes e vindo do interior

Mas sei que tudo é proibido, aliás, eu queria dizer que tudo é permitido
Até beijar você no escuro do cinema quando ninguém nos vê

Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Som, palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém

Mas não se preocupe, meu amigo com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção
A vida realmente é diferente quer dizer, ao vivo é muito pior

Eu sou apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco
Por favor não saque a arma no saloon, eu sou apenas um cantor

Mas se depois de cantar você ainda quiser me atirar
Mate-me logo à tarde, às três que à noite eu tenho compromisso
E não posso faltar por causa de você

Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes e vindo do interior

Mas sei, sei que nada é divino
Nada, nada é maravilhoso
Nada, nada é secreto

Nada, nada é misterioso não

quinta-feira, 23 de maio de 2013

OVELHA NEGRA


OVELHA NEGRA
A Revista Intervalo, que tinha um formato muito próximo do de bolso, colorida na capa e no miolo, foi para mim como já afirmei nesta serie uma fonte de conhecimentos de musica Brasileira. Folheando um dos números no inicio dos anos 70, vi a foto de uma loirinha vestida com uma túnica estilo noviça rebelde e segurando uma flor. Era Rita Lee, então vocalista da maior banda de Rock do Brasil de todos os tempos, os Mutantes.

Fiquei interessado e fui a busca de informações dela e do grupo. Totalmente influenciados pelo Rock Psicodélico, os irmãos Dias e Rita fizeram História no Rock e na MPB. Recentemente assisti o documentário “Uma Noite em 67”, sobre o famoso Festival da Virada. Os Mutantes, junto com Gilberto Gil apresentaram ao mundo a possibilidade de fundir guitarras elétricas ao Berimbau e a uma orquestra sinfônica. Nascia a Tropicália de Gil que neste Festival acompanhado dos Mutantes cantava Domingo no Parque e Caetano Veloso.

Os Mutantes eram pura experimentação. Da Tropicália para a psicodélia, depois para o Rock Sinfônico. Rita parecia nos meados dos setenta, voos solos, formulas mais simples de musica, até um pouco comercial e compor mais. Ela deixa os Mutantes e envereda para a carreira individual. Faz três discos antes de Fruto Proibido. Conquista espaço nas Rádios e programas de auditório e populares na TV. Emplaca alguns sucessos como José e Menino Bonito.  

Mas o estouro vem mesmo com Fruto Proibido, o segundo com a Banda Tutti Fruti. A Banda que tinha em Luis Sergio Carlini, seu líder, começou em 1971, como Coqueiro Verde. Tocando em bares do Bairro de Pompéia e na onda das drogas lisérgicas da época, o grupo muda para Lisergia. Ao conhecer Rita, a loirinha não gostava do nome da Banda que passa a ser de apoio da Cantora. O nome do Show de 1974, é que vai se encaixar na nominação da Banda.

Vai ser Ovelha Negra, o grande sucesso deste disco, que terá ainda os clássicos, Agora Só Falta Você de Rita com Carlini e uma das três na parceria com o bruxo Paulo Coelho Esse Tal de Roque EnrowOs arranjos são de Carlini e quase todo Blues Rock. Rita assina quase todas as canções, e Ovelha é uma das que ela fez sozinha para o disco.

O conteúdo, o que vai marcar a carreira de Rita Lee, o cotidiano de cada tempo vivido por ela. O conflito familiar da menina rebelde, é a tônica de Ovelha Negra. A cantava no meio fio das calçadas com os amigos e nas festinhas onde rolava MPB. A Música foi ainda tema da segunda versão de Mulheres de Areia na TV Globo. Link para o vídeo da canção: http://migre.me/eH6Qm .
Ovelha negra
Levava uma vida sossegada
Gostava de sombra
E água fresca
Meu Deus!
Quanto tempo eu passei
Sem saber!
Uh! Uh!...
Foi quando meu pai
Me disse:
"Filha, você é a Ovelha Negra
Da família"
Agora é hora de você assumir
Uh! Uh! E sumir!...
Baby Baby
Não adianta chamar
Quando alguém está perdido
Procurando se encontrar
Baby Baby
Não vale a pena esperar
Oh! Não!
Tire isso da cabeça
Ponha o resto no lugar
Ah! Ah! Ah! Ah!
Tchu! Tchu! Tchu! Tchu!
Não!
Oh! Oh! Ah!
Tchu! Tchu! Ah! Ah!...
Levava uma vida sossegada
Gostava de sombra
E água fresca
Meu Deus!
Quanto tempo eu passei
Sem saber!
Han!! Han!...
Foi quando meu pai
Me disse:
"Filha, você é a Ovelha Negra
Da família"
Agora é hora de você assumir
Uh! Uh! E sumir!...
Baby Baby
Não adianta chamar
Quando alguém está perdido
Procurando se encontrar
Baby Baby
Não vale a pena esperar
Oh! Não!
Tire isso da cabeça
Ponha o resto no lugar
Ah! Ah! Ah! Ah!
Tchu! Tchu! Tchu! Tchu!
Não!
(Ovelha Negra da Família!)
Tchu! Tchu! Tchu!
Não! Vai sumir!...

terça-feira, 21 de maio de 2013

PARALELAS


Em meados de 1975, sintonizei pela primeira vez em um radio em minha casa, a Super Radio Tupi do Rio de Janeiro, da rede Associadas. Naquele tempo, como já disse em vários textos ouvia muito rádio e sempre tive um espirito bem garimpeiro, até hoje. Nas garimpagens, descobri o programa A Turma da Maré Mansa. Um programa de humor, que esteve no ar na Radio Tupi, entre os anos 70 e 80 do século passado.

Um programa leve que era dividido em esquetes curtos, que depois foram copiados em programas de TV, como Viva o Gordo e Chico City. Nele trabalharam grandes nomes do humor Brasileiro: Chico Anísio, Geraldo Alves, Orlando Drummond, Zezé Macedo, Rogério Cardoso, Brandão Filho, Zé Trindade e muitos outros. O programa era alternado, entre um quadro humorístico e uma música Brasileira. Eram os tempos em que as rádios tocavam muita musica estrangeira.

Foi numa desta noites (o programa ia ao ar das 21 ás 22h), que ouvi pela primeira vez Paralelas de Belchior. A interprete era Vanusa, da qual já conhecia dos cadernos de cifras do Tio Joaquim e dos Programas Populares da TV. A canção foi digamos a primeira do compositor Cearense que tocou em rádios com um relativo sucesso, embora ele não fosse ainda conhecido. Belchior terá sua consagração com Elis Regina.

Vanusa grava Paralelas no disco Amigos Novos e Antigos de 1975, uma de suas primeiras incursões pela chamada MPB, que além de Belchior traz João Bosco e Aldir Blanc e claro seu então marido Antônio Marcos. Com um inicio na Jovem Guarda, penso que Vanusa sempre foi uma injustiçada pela critica que insistiu (e insiste) em rotula-la como comercial demais. Sua obra é linda, com canções importantes, entre elas Manhãs de Setembro, Rotina e Mudanças.

Paralelas em seu conteúdo marca as reflexões de Belchior sobre o ser humano e seu cotidiano. Ela é uma critica ao cidadão moderno e mediano que se rende ao vil metal e fecha os olhos para os problemas da humanidade. Letra simples e profunda, é quase que uma confissão um arrependimento do personagem que se encantou com as vantagens do Capitalismo e que agora tenta se afastar. A canção também pode ser encontrada no disco Alucinação de 1976 de Belchior, na voz do autor em um arranjo de balada para dançar. Por enquanto vejam aqui o vídeo com Vanusa:

Paralelas

Dentro do carro
Sobre o trevo
A cem por hora, ó meu amor
Só tens agora os carinhos do motor
E no escritório em que eu trabalho
e fico rico, quanto mais eu multiplico
Diminui o meu amor
Em cada luz de mercúrio
vejo a luz do teu olhar
Passas praças, viadutos
Nem te lembras de voltar, de voltar, de voltar
No Corcovado, quem abre os braços sou eu
Copacabana, esta semana, o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel, o que é paixão
E as paralelas dos pneus n'água das ruas
São duas estradas nuas
Em que foges do que é teu
No apartamento, oitavo andar
Abro a vidraça e grito, grito quando o carro passa
Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu

domingo, 19 de maio de 2013

COMO NOSSOS PAIS


Esta canção ouvia muito nas rádios AM inclusive por volta de 1976. Elis Regina já fazia parte de meu imaginário, pré adolescente. Já a conhecia, pela Revista Intervalo, descoberta na casa de minha avó. Não sabia que a música que fazia sucesso, era de um compositor Cearense, lançado por Elis no disco Falso Brilhante. A cantora desde seu primeiro trabalho, tinha a grata mania de lançar novos compositores. Só para citar alguns: Edu Lobo, Ivan Lins, João Bosco e Aldir Blan, Claudio Nucci e muitos outros.

Belchior já tinha lançado um disco, com relativa repercussão, mais em Fortaleza de que no Sul/Sudeste Maravilha. Figura o bigodão como parceiro de Fagner, em canções como Mucuripe, A Palo Seco. Frequentador de Festivais daqueles anos 70, venceu com Na Hora do Almoço no IV Festival Universitário da Canção no Rio de Janeiro.

Mas é Elis Regina quem vai coroar Belchior como um dos mais importantes nomes da música naqueles anos setentistas. O Show Falso Brilhante de temporada recorde em um só local (Dois anos e meio no Teatro Bandeirantes), é que revelaria para o mundo sua obra. Tanto no disco, como no Show, há duas canções de Belchior, esta e Velha Roupa Colorida. As duas serão gravadas no LP Alucinação, o segundo do cantor e compositor Cearense.

Como Nossos Pais, é uma leitura daqueles tempos difíceis de Ditadura Militar e de perspectivas para a Juventude. Belchior é o compositor que mais traduz o cotidiano e o sentimento do Latino Americano. O refrão muito forte, delineia o que frequentemente ouvimos na fase adulta, muita gente dizer “Eu quando Jovem também queria mudar o mundo”. Se dar bem, cuidar da vida, sendo atraído pelo vil metal, pressupõe uma dicotomia de abandonar os sonhos as utopias.

A letra é uma critica a cooptação de antigos ídolos que se renderam ao sistema. Uma critica ao comodismo e ao fechar de olhos para as angustias do mundo coletivo. Belchior passeia por uma analise de consciência de sua própria geração, esmagada pelas botas dos Generais. É uma critica ao conformismo. Muito atual, a música um Blues Rock no arranjo do Cesar Camargo Mariano para a Elis, é uma Balada Blues na voz do compositor, nos faz refletir sobre o conformismo de muitos em relação ao mundo do século XXI.

Tanto o Disco Falso Brilhante da Elis Regina, como o Alucinação de Belchior, são de 1976. Eu cheguei a ter os dois em vinil, são imperdíveis. A mais recente regravação da canção, esta no ótimo disco da filha da Elis, Maria Rita, o CD “Redescobrir”, com faixas de músicas cantadas e consagradas pela maior cantora do Brasil.

Aqui deixo o link para o vídeo da música http://migre.me/eCobS  e a letra abaixo.


Como Nossos Pais

Não quero lhe falar, 
Meu grande amor, 
Das coisas que aprendi 
Nos discos...

Quero lhe contar como eu vivi 
E tudo o que aconteceu comigo 
Viver é melhor que sonhar 
Eu sei que o amor 
É uma coisa boa 
Mas também sei 
Que qualquer canto 
É menor do que a vida 
De qualquer pessoa...

Por isso cuidado meu bem 
Há perigo na esquina 
Eles venceram e o sinal 
Está fechado prá nós 
Que somos jovens...

Para abraçar seu irmão 
E beijar sua menina na rua 
É que se fez o seu braço, 
O seu lábio e a sua voz...

Você me pergunta 
Pela minha paixão 
Digo que estou encantada 
Como uma nova invenção 
Eu vou ficar nesta cidade 
Não vou voltar pro sertão 
Pois vejo vir vindo no vento 
Cheiro de nova estação 
Eu sei de tudo na ferida viva 
Do meu coração...

Já faz tempo 
Eu vi você na rua 
Cabelo ao vento 
Gente jovem reunida 
Na parede da memória 
Essa lembrança 
É o quadro que dói mais...

Minha dor é perceber 
Que apesar de termos 
Feito tudo o que fizemos 
Ainda somos os mesmos 
E vivemos 
Ainda somos os mesmos 
E vivemos 
Como os nossos pais...

Nossos ídolos 
Ainda são os mesmos 
E as aparências 
Não enganam não 
Você diz que depois deles 
Não apareceu mais ninguém 
Você pode até dizer 
Que eu tô por fora 
Ou então 
Que eu tô inventando...

Mas é você 
Que ama o passado 
E que não vê 
É você 
Que ama o passado 
E que não vê 
Que o novo sempre vem...

Hoje eu sei 
Que quem me deu a idéia 
De uma nova consciência 
E juventude 
Tá em casa 
Guardado por Deus 
Contando vil metal...

Minha dor é perceber 
Que apesar de termos 
Feito tudo, tudo, 
Tudo o que fizemos 
Nós ainda somos 
Os mesmos e vivemos 
Ainda somos 
Os mesmos e vivemos 
Ainda somos 
Os mesmos e vivemos 
Como os nossos pais...

domingo, 23 de agosto de 2009

SÉRIE: MÚSICA QUE INSPIRA UM CONTO III


O DIA EM QUE CARLITOS DESCOBRIU A ALEGRIA

Para Ruani e Pietro

Carlitos não tinha tempo nem para respirar. As engrenagens, o painel com botões, o consumiam, nem se lembrava de seu nome ou vida fora dali. A monotonia, a rotina, não o incomodava, porque não a percebia. Mas a cada parada, seus olhos se afundavam na tristeza. Se bem que, Carlitos e outras aventuras, mesmo engraçadas, guardava nos fundos das retinas, um triste olhar. Talvez indignado com a individualidade reinante entre as pessoas? Talvez porque pouco ele e os seus tinham para comer, vestir? Talvez amores perdidos, não correspondidos?. As respostas ficam para a eternidade, nunca são reveladas, nem tão pouco SMILE, é herança para dirimir estas dúvidas cruel.

Nosso Carlitos, tinha segredos, os quais nunca aguçaram nossas curiosidades, pois não tínhamos tempo para isto, pois sua arte e graça nos completavam. Mas só para titulo de registro, alguns destes segredos: Porque usava fraque, terno, cartola e bengala? Ainda por cima da cor preta?. Carlitos não tinha sobrenome, porque? Nem mulher, nem filhos, apenas esporádicos. O olhar triste é então o maior destes segredos.

Naquele dia, Carlitos conseguiu parar. Uma indisposição, o fez deixar o monstro de aço e ir até o repouso das tiriricas. Lá ajeitou-se e ficou a pensar, longe, perto, não importa, ficou a pensar. Vida, vida, chata e pesada que vivia, não era feliz. Nem chorar conseguia mais, nem se recorda quando foi a última vez, que lágrimas rolaram pela sua face. Nem quando um alemão adepto do Partido Nacional, o agrediu: Judeu de merda, morte a ti. Nem raiva sentiu, não tinha tempo para estas frivolidades, típicas dos fortes, dos poderosos. Pobres e ainda por cima operários, não tem este luxo.

A sirene terrível, tocou, quase arrancando seus tímpanos. Não tinha forças para correr e se ver livre daquele ambiente hostil e carniceiro, pois a cada fim de dia sentia-se como que parte de suas carnes foram ali destroçadas. Mas com muito custo, chegou ao trocador e colocou sua roupa. O fraque, a cartola, o sapato brilhando e é claro a bengala. Apesar das tormentas e do caos, Carlitos nunca perdeu a pose, ou quem sabe a esperança. As roupas simbolizavam isto?. Foi um dos últimos a sair, até porque raça pura não se mistura com o povo de Israel. Não queria ir para casa. Decidiu andar pelas ruas, quase desertas.

Andar, andar, andei, era a ordem da consciência Carlitista. È como se a senhora de nossos atos, estivesse querendo fazer previsões, de que algo inusitado poderia vir a acontecer. Carlitos caminhava, tentando esquecer os relinchos e gritos do monstro, ou os bla, bla blas, dos homens de capa. Não se atentou que se distanciava, em muito de seu caminho diário. Começava a não reconhecer onde estava. Casas simples, mas lindas. Ruas claras e limpas, onde circulavam, pretos, amarelos, vermelhos, brancos, Judeus, Cristãos, Budistas e outros. Reparou que não havia chaminés, muito menos carros rasgando avenidas e quase atropelando pessoas. Viu animais das mais variadas espécies. Ouviu música, de ritmos mil. Carlitos amava música, tanto que nunca dispensou de suas Histórias mesmo quando não sabia falar, um bom músico. Foi seguindo a trilha das canções: era Jazz, Blues, Gospel, Fox Trote, Tango, Valsa. As pessoas tinham rostos pintados e roupas coloridas e largas. E dançavam, exalando um perfume com gosto de alegria.

Carlitos continuava a andar, e cada vez mais um som lhe chamava a atenção, vinha de uma pequena viela. O ritmo, moderno com um arranjo de grandes espetáculos da arte da lona. Nosso Judeu, estava embevecido com aquela música. Atentou-se para trechos da canção: Solta a prosa presa , a luz acesa, já se abre um sol em mim maior. Correu, como a muito não fazia,. Chegou na viela. Nao acreditou no que via. Era fascinante, uma surpresa, daquelas de cair o queixo, até de um palhaço, experimentado e não se deixar abater, apesar dos olhos tristes. Mas alí não era abatimento, nem sofrimento, era deslumbramento. Pura poesia.

Ela era linda, jovem, com uma vestimenta toda colorida, com uma saia a rodar. Ele um molequinho, ao contrario de Carlitos, seus sons saiam e ele sorria, no colo de sua progenitora. Eles dançavam, ela cantava a canção do Poeta e Palhaço Pena, como se mostra-se a ele que o mundo é bom, é magia, é emoção. Ele agitava-se em seus braços, como que aceitando a apresentação ali feita. Eles não viam Carlitos.

Nosso Palhaço Poeta, estava petrificado. Percebeu que amava aquela menina negra. Não um Amor carnal, mas afetuoso. O molequinho, ele nem sabia a dimensão que seu coração estava a sentir. O vazio, a rotina, a chatice, iam embora. Eram substituídos, pela força daqueles seres, felizes a dançar e cantar, como a descobrir o Nirvana. Atingir Deus, assim pensava Carlitos, ao ver aquela cena maravilhosa.

Aos poucos juntavam-se a mãe e seu filho, malabaristas, mágicos, equilibristas, outros dançarinos, bonecas de pano e palhaços, tal qual Carlitos, que neste momento, sentava ao meio fio da calçada, e estava em prantos. Um choro de gozo e não de angustia. O Palhaço chorou e alegrou-se, como se a vida resumi-se aqueles momentos de extase, catarse. Mas se não se limita, uma coisa Carlitos teve a certeza, seus olhar não será mais triste.

Pena

O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli e Maíra Viana

O poeta pena quando cai o pano
E o pano cai
Um sorriso por ingresso
Falta assunto, falta acesso
Talento traduzido em cédula
E a cédula tronco é a cédula mãe solteira

O poeta pena quando cai o pano
E o pano cai
Acordes em oferta, cordel em promoção
A Prosa presa em papel de bala
Música rara em liquidação

E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
A Luz acesa
Lá se dorme um Sol em mim menor

Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior (4x)

O palhaço pena quando cai o pano
E o pano cai
A porcentagem e o versorifa, tarifa e refrão
Talento provado em papel moeda
Poesia metamorfoseada em cifrão

O palhaço pena quando cai o pano
E o pano cai
Meu museu em obras, obras em leilão
Atalhos, retalhos, sobras
A matemática da arte em papel de pão

E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
A luz acesa
Já se abre um sol em mim maior

[Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior] (4x

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A POESIA COMO PONTO DE EVOLUÇÂO HUMANA


O tempo para o poeta, praticamente não existe. A poesia não é um produto que se faz em grandes quantidades, para alimentar um mercado ou parte de uma linha de montagem. O poeta é o Senhor de seu tempo e no espaço de sua criação de seu mundo muito particular. Ali ele passeia por pensamentos e fantasias, vividas e sonhadas. A Poeta não esta morto e nunca morrerá, afirma o Jornalista de formação, mas poeta de opção, Otacílio César Monteiro.

Uma delicia de Entrevista. Muito lúcido, este Araraquarense, mas Limeirense por vocação, nos faz caminhar com ele sob opiniões e concepções acerca da Literatura e sua importância, para não só o conhecimento das Pessoas, mas para o próprio crescimento delas no caráter, para assim mudar o mundo.

Conheci Otacílio, quando juntos fizemos o antigo Ginásio na Escola Trajano Camargo. Lá ele já desenvolvia seus dotes de escritor. Com uma analise fraterna, mas franca, Otacílio, discorre sobre a Academia Limeirense de Letras, e mesmo tendo restrições, deseja que a ALL, possa contribuir para o conhecimento intelectual de nosso povo.

Por fim, com onze livros publicados e dezenas de atividades ligadas a arte de escrever, Otacílio, demonstra o quanto é um dos maiores artistas de nossa cidade.

1. O que você acha da máxima do Carlos Drummond: “10% de Inspiração e 90% de Transpiração?

Otacílio: A relação é mais ou menos essa. Escrever é um ato intelectual e não sentimental.
É claro que se você está inspirado, isto é, realmente interessado num tema ou espiritualmente propenso a fazer algo de que gosta (e todo escritor gosta de escrever, assim como o futebolista gosta de jogar), a obra tende a ser mais bem elaborada. Mas escrever é muito mais trabalho que fruição, muito mais técnica que devaneio.

2. Como você se define no mundo da Poesia? Tem alguma corrente poética que te atrai?

Otacílio: Isso talvez choque as pessoas que confiam no meu trabalho, mas apesar de ter lido razoavelmente nunca me aprofundei no estudo das escolas literárias. A Poesia que me atrai é a contemporânea, mas não sou chegado a modismos. Gosto do verso livre e também aprecio construções mais elaboradas, como um bom soneto. Eu diria que sou um viúvo da Poesia de Quintana, Vinícius, Cecília.

3. Fale um pouco de sua obra. Quantos livros? Quais os Gêneros? Qual mais gosta?

Otacílio: São onze livros, sendo dez em Poesia e um em Prosa.
Dos livros de Poesia, um é infantil. Chama-se Pau, Pau, Pedra, Pedra e conta a história de Paulo Pedro, um menino perfeccionista e turrão, que melhora a postura ao final do poema.
Gosto de todos os meus livros, mas confesso que atualmente estou apaixonado por este infantil, que está na segunda edição e já vendeu 3.500 exemplares, quase todos entregues na mão do leitor com o meu autógrafo. Escritor independente não vende em livrarias, tem que dar a cara pra bater. E a surpresa boa: leitor não bate, dá carinho. Criança, então, nem se fale.

4. Outra frase, a qual gostaria de saber sua opinião. Em tempos de Globalização Econômica, “O Poeta está Morto”?

Otacílio: Não, o poeta não está morto e jamais vai morrer. O que está em constante mutação é o meio de exposição e venda, e não a atividade fim. A atividade fim do poeta é escrever poemas. Isso nunca morrerá. E, seja de forma independente ou através de editoras, o poeta mostrará sua obra, em livros impressos, Cd’s, dvd’s ou o raio que o parta

5- Limeira tem uma Academia de Letras. Você não é membro. O que acha desta instituição? Ser imortal traz que tipo de contribuição a sociedade? Não acha ser a Academia algo elitizante, e excludente?

Otacílio: Começando pelo fim da pergunta, o ser imortal em questão pode contribuir, sim, no sentido de enaltecer e registrar para sempre obras e indivíduos de incontestável contribuição cultural e artística. A Academia deveria mesmo ser elitizante, no sentido de reunir a nata da intelectualidade, gente com obras, publicadas ou não, de muito peso.
Mas com todo respeito aos literatos vivos e falecidos de nossa cidade, é muito fácil de se notar que não temos 40 acadêmicos incontestáveis, nem quando juntamos vivos e mortos. Por isso fui contrário à fundação da academia, pois entendo que o rótulo é muito forte.
Quero, entretanto, deixar claro que não me interesso em ficar criticando essa entidade e espero que ela traga a sua contribuição cultural. Evito me manifestar publicamente a respeito, pois tenho vários amigos lá e não quero perdê-los. Principalmente, agora, que são imortais. Seria um carma e tanto.

6. A SOLL não é uma Academia, certo. Mas quais são as finalidades desta entidade?

Otacílio: A SOLL _ Sociedade Literária Limeirense é uma associação que congrega escritores, poetas e amantes da Literatura. Nossa intenção é propiciar ao associado crescimento cultural e intelectual na área de Literatura. No momento, estamos empenhados em finalizar a Coleção Maria Paulina, que prevê o lançamento de 10 livros de bolso, dos quais quatro já foram lançados. O grande diferencial da coleção é lançar obrigatoriamente autores inéditos. Acreditamos que isso seja uma boa contribuição para a cidade, pois propicia a aparição de autores novos.


7. Até meados dos anos 60 do século XX, a literatura poética, tinha espaço no Jornalismo dito comercial. Vários veículos tinham páginas dedicadas a poemas, contos, crônicas e outros. Grandes mestres ocuparam grandes jornais, com seus escritos: Raquel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Rubem Braga, Nelson Rodrigues e tantos outros. Hoje para ser publicado uma vertente literária, só o acaso. Pergunto, a emoção da literatura foi substituída pela concepção de Jornalismo frio, seco e voltado para o lucro? Como define isto?.

Otacílio: A Imprensa sempre esteve voltada para o lucro e interessada na queda de braço do Poder, mesmo no tempo do jornalismo romântico. Talvez a diminuição da frequência dos grandes mestres nos jornais impressos também se deva ao surgimento de novas mídias, como a Internet, e ao crescimento da TV. Quero dizer que o mundo mudou e o Jornalismo também se embruteceu mais. Mas o jornalismo não é mesmo lugar de literatura. Exceto para alguns gênios que, talvez, estejam em falta.


8. O Argentino nosso ilustre vizinho lê em média, 10 livros por ano. O preço médio de uma obra lá gira em torno de quinze reais, mesmo em crises bravas. Aqui a média entre os que têm acesso a leitura é de três anualmente e o preço médio do livro é de 40 reais. Quais em sua opinião as razões para esta situação?

Otacílio: Um dos grandes problemas é que as pessoas não têm consciência do custo editorial, principalmente agora que o governo fornece muitos livros de graça, e nem sempre livros de qualidade. Tudo o que vem fácil demais não tem sabor. Por outro lado, se houvesse mais subsídios, talvez o preço de capa fosse mais baixo e isso incentivasse mais as vendas. Agora, o cerne da questão está na educação infantil, certamente. Ler por obrigação tem sido o grande problema. As crianças deveriam ler por prazer e aprender que por trás de um livro tem um trabalho de pesquisa, além do escritor, ilustrador, arte finalista, diagramador, gráfico, livreiro e uma série de outros profissionais, sem falar nas máquinas e na matéria-prima. Em suma, os livros não brotam na prateleira da biblioteca ou da livraria. Eu acho que los hermanos sabem disso.


9. Você desenvolve projetos voltados a literatura, com crianças, certo. Quais são e como as pessoas podem participar?

Otacílio: Atualmente, realizo a palestra “Palavra, ferramenta de trabalho, em que falo de meus 20 anos como escritor e da importância da palavra como uma ferramenta de trabalho na vida familiar, estudantil e profissional de qualquer pessoa. Ao final, falo do meu livro e o autografo para as crianças que adquirirem. Com o apoio de várias empresas, colocaremos em ação a campanha “Um presente para Paulo Pedro”. Crianças de 7 a 12 anos de qualquer escola poderão participar e concorrerão a muitos prêmios. Os detalhes estão no blog http://www.aventurasdepaulopedro.blogspot.com/ .
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10. Ziraldo disse certa vez que, para escrever é preciso ler. E quem lê pode fazer Revolução, certo?

Otacílio: Sim, para escrever é preciso ler. E isso já é uma grande revolução e uma grande evolução. Para mim, a grande revolução é a evolução individual de cada um. Não acredito mais em pessoas que desejam mudar o mundo e continuam a roer unhas. Se o cara não se transforma a si mesmo, não faz revolução.

11. Qual sua opinião da Política Cultural de nossa cidade?

Otacílio: Ela inexiste. Temos um excepcional agente cultural, o atual vereador Farid Zaine, que é meu amigo particular, grande artista e grande homem público. A cada vez que ele assume a Secretaria da Cultura, os projetos fluem. Quando sai, mínguam.
Isso prova que não há uma política cultural de continuidade. Talvez a pressão dos artistas, que agora formaram uma associação, possa dar resultado. Pena que não chamaram representantes da área literária, sob alegação de já existirem a SOLL e a Academia. Mas tá valendo. O fato do nosso prefeito também ser um artista, com dois livros publicados, deve ajudar no diálogo.

12. Qual o novo projeto?

Otacílio: Meu novo projeto, que depende de São Patrocínio, protetor de todos os artistas, é fazer uma exposição sobre meus 20 anos de Literatura, durante a qual pretendo lançar meu novo livro, que está pronto, com cem poemas inéditos e o título “Contradança”.

13. Poderá nos brindar com um poema inédito?


Com muito prazer, aí vai o mais recente:

Felino


A outra face da foto-

o fotógrafo-
fareja, fita e fixa

algum momento fugaz.


O fino flash, no ato,

captura a nova cena,

emoldura mais um fato.


De seu observatório,
a um poema da presa,
o criador se revela.

Otacílio Cesar Monteiro

quarta-feira, 29 de julho de 2009

PAULO SÈRGIO: NUNCA SERÁ A ULTIMA CANÇÃO


“Meu filho Deus que lhe proteja e onde que que esteja eu rezo por vocêEu adoro ver você sorrindo, seu sorriso faz de tudo eu esquecer”. Cansei de ouvir este refrão da canção “Meu Filho Deus que lhe proteja”, grande sucesso de Paulo Sérgio. O leitor entre 10 a 30 anos, deve estar se perguntando: Quem?. Mas se a pessoa que ler tiver mais de 40 anos, com certeza, se lembra de quem estou falando. Certo e errado. Certo porque o Capixaba Paulo Sergio, oriundo da mesma Cachoeiro do Itapemirim, cidade natal do Rei Roberto Carlos, fez enorme sucesso, entre as décadas de 60 e 70, do século passado, sendo tocado muito nas Radios AM deste País, e visto por milhões de pessoas em programas populares de TV, como Chacrinha, Bolinha, Silvio Santos e outros. Errado porque parte dos leitores quarentões, cinquentões, ignoraram este artista, por consideraram ser brega, cafona, detentor de um repertório alienante e adesista, principalmente em tempos de Ditadura Militar e se esforçaram ao longo dos tempos para esquecer e fazer com que as novas gerações sequer ouvíu falar deste icone das empregadas domésticas e porque não o que as elites chamam de povão.

È este povão, que todo o dia de Finados, lotam a quadra 14, tumulo 30.831, do cémiterio do Cajú, um dos mais famosos do Rio de Janeiro, por abrigar entre seus moradores, ilustres politicos como Presidentes da República (Hermes da Fonseca e Prudente de Moraes), atores como Procópio Ferreira e Oscarito, e verdadeiras pérolas de nossa musica como Noel Rosa, Dolores Duran, Cartola, Jackson do Pandeiro, Tim Sindico Maia, e bem defronte ao de Paulo Sérgio, o cantor das multidões, Orlando Silva, que nas décadas de 40 e 50, foi amado e cultuado, tanto quanto seu vizinho de cemiterio, pelas massas populares.

Mas ao contrario do cantor de a Ultima Canção, Orlando Silva, não recebe tantas visitas, como o seu companheiro de viagem eterna. Em todo o dia 02 de Novembro, desde o dia 29 de Julho de 1980, quando Paulo Sergio, adentrou o Cemitério do Cajú, para ir morar no cèu, que sua jazida, é cultuada, por fãs de todo o Brasil, de todas as idades, e cores, e principalmente, por empregadas domésticas, pedreiros, baconistas, catadores de papel, ou seja os pobres, a massa, a favela, o cortiço, a periferia. São pessoas simples e em sua maioria anonimas, que frequentam o tumulo, levando flores, discos, cds, faixas, fotos, recortes de revistas e jornais. Enfim tudo sobre o idolo, alem é claro de passarem o dia todo ouvindo musicas, do Cantor, que em 1968, ameaçou o trono de Roberto Carlos.

Surgiu como um autentico cantor Romantico, Paulo Sergio encantou a midia, que queria um motivo para uma disputa, entre dois idolos da juventude, que nunca, cairam nesta cilada. Embora uma outra mídia, a chamada da tal MPB de fato, criticou Paulo Sergio, dizendo que era um imitador barato do Rei, inclusive na voz.. Mas eles, sempre se respeitaram. Só para ter uma idéia do que representou o cantor, naquele final dos anos 60, seu compacto com a musica “A Ultima Canção”, vendeu em três semanas, mais de 60mil cópias, que para os padrões da época, só Roberto Carlos, vendia desta forma. Foram 13 LPs, gravados, e algumas colêtaneas, dos quais lhe rendeu mais de 8milhões de discos vendidos, até a sua morte.

Mas sua trajetória, como de todos os cantores, da chamada música brega, não foram e não são reconhecidos, como parte da MPB. Na maioria dos livros sobre a História da Música Brasileira, Paulo Sergio tem sua História excluída ou na melhor das hipoteses, um verbetizinho, quase inexpressivo. Tal qual a imensa maioria dos pobres, estes compradores e admiradores de sua música, o artista de Cachoeiro, é cortado, quase que como um cancêr ou uma praga, dos meios literarios, e musicais. Poucos são os artistas que ousam lhe fazer tributos, fora do circulo dos bregas&cafonas.

A tese de que somos um povo que não discrimina, já caiu por terra, milhões de vezes. Somos um País, que o Racismo existe, a Homofobia é violenta, as mulheres ainda são tratadas como sexo fragil e de cama e mesa, que a questão social é condição para estabelecer privilégios na sociedade, as artes tambem não são excessão á regra. Para artistas do naipe de Tim Maia, Elis Regina, Cazuza e tantos outros, que não estão mais neste mundo, os espaços para a preservação da memória de suas vidas e obra, são diversos: tocam nas radios, seus discos são reeditados, há tributos, regravações, livros, filmes e espetaculos teatrais. Mas para a Dona Maria, a Zefa, o diogo sapateiro, a amélia cobradora de onibus, o passoca, reciclador de lixo, só a um espaço de culto a um artista como Paulo Sérgio, seu tumulo.

Paulo Sergio de Macedo, morreu em um domingo, após cantar no programa do Bolinha, da TV Bandeirante e de se apresentar, em um dos palcos, onde o “povão” sempre esta, o circo. Um aneurisma cerebral, interrempeu a carreira, de um dos maiores nomes do cancioneiro popular. Uma tradução das amarguras, desilusões, alegrias, aventuras, dos pobres deste multicolorido Brasil, como gosta de dizer, o plural Darci Ribeiro. Paulo Sergio, foi ao lado de Odair José, Waldick Soriano, Nelson Ned, Agnaldo Timotéo e outros, a voz dos que estavam á margem do que acontecia nos porões da Ditadura, as margens de uma moradia e emprego decente, mas que viam neste universo musical, uma identidade com estes cantores, que como o “povão”, vieram da lama, do caos, como cantava Chico Science.

E eu me rendo á arte de Paulo Sergio, que hoje completa 29 anos de sua partida.

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA SOBRE PAULO SÉRGIO E A MÚSICA BREGA:

Eu não sou cachorro não

Autor: Paulo César Araujo

Editora: Record

Onde encontrar: http://www.tfm-online.de/ - Consulte preços

Para Ler na Rede:
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=31666653&tid=5335414993148625859&na=1&nst=1 .