quarta-feira, 5 de junho de 2013

PENAS DO TIÊ


Nara Leão é para mim uma incógnita. Sua voz fraquinha e seu jeito de cantar baixinho, explode em mim vários sentimentos. Se pensar no técnico diria que não gosto, as vezes até tem um que de desafinado. Alias a quem diga que Tom Jobim se inspirou nela para conceber o clássico “Desafinado”. Mas o que mais me encantava nela era tradução que ela dava nas canções.

Podia ser uma bossa nova, considerada no inicio como canção de apartamento, em função de que o grupo que vai criar o “movimento”, tinha a casa de Nara como local para a apresentação das novidades. Podia ser uma de Protesto como Opinião ou Cacará, letras fortes, mas que Nara Leão as cantava baixinho, ou uma Romântica como Além do Horizonte de Roberto e Erasmo Carlos.


Como cantoras de sua extirpe Nara, transformava o simples em poesia cantada. Era lindo vê-la cantar suave. Quando alguns anos atrás, Fernanda Takai, do Pato Fú, gravou seu primeiro trabalho solo, foi músicas de Nara Leão, que ela cantou. Nelson Motta, foi quem sugeriu a Takai que grava-se Nara. Dizia ele pela identificação da voz, o baixinho, o suave e ao mesmo tempo profundo. Ouvi Nara pela primeira em uma coletânea da qual não me lembro mais. (Era uma canção infantil, Pof o Dragão Mágico, uma versão feita pelo então naquele momento compositor Renato Teixeira, da musica Puff, the Magic Dragon).


Alias Nara Leão antes de Elis Regina, já lançava novos compositores, era sua sina. Iniciou-se lá no Apartamento, onde apresentou para os já adultos Tom Jobim, Vinicius de Moraes, garotos talentosos, entre eles Roberto Menescal e Carlos Lira, que estavam aprendendo a batida de um tal João Gilberto. De musa da Bossa Nova, Nara foi para a canção de Protesto e já em primeiro disco, lançou um Nordestino João do Vale e um sambista de Morro Zé Keti.
Bom, meu ultimo foi de uma canção de Raimundo Fagner, do LP Manera Frufru Manera de 1973, depois relançado em 1979. 

Foi nos acordes do Violão do então Padre Luís Carlos do Nascimento, da comunidade de Santa Luzia, que ouvi outra preciosidade deste disco. Penas do Tiê, que no disco aparece como retirado do folclore, mas em alguns textos, de autoria de Luís Gonzaga. Esta canção de amor, fala de um pássaro. O Tiê, que no Nordeste ele é conhecido como Tiê Sangue ou Sangue de Boi, por conta de sua Plumagem Vermelha. No Sudeste e Sul, o Tiê é preto, em São Paulo é foguinho Preto. Suas penas são pretinhas, bem pretinhas.

A referencia ao Tiê é o seu canto que faz o sertanejo se deliciar com as coisas da Natureza e fazer uma ode ao seu Amor. Nara Leão canta ao lado de Fagner, esta linda musica. Sussurrei ela varias vezes para alguns de meus amores.

Mas para quem quer lembrar de seu Amor, com os sons da Natureza e ao mesmo tempo matar saudades de Nara Leão Click aqui: http://migre.me/eT6uq


Penas do Tiê



Vocês já viram lá na mata a cantoria,
Da passarada
Quando vai anoitecer,
E já ouviram o canto triste da araponga,
Anunciando que na terra vai chover,
Já experimentaram guabiroba bem madura,
Já viram as tardes quando vai anoitecer,
E já sentiram das planícies orvalhadas

O cheiro doce das frutinhas muçambe
Pois meu amor tem um pouquinho
Disso tudo
E tem na boca a cor das penas do tiê,
Quando ele canta os passarinhos ficam mudos
Sabe quem
é o meu amor
Ele é você você você...





segunda-feira, 3 de junho de 2013

CANTEIROS

Conheci Raimundo Fagner em 1979, alias sua música. O Padre de minha comunidade Católica, da Igreja de Santa Luzia, hoje meu companheiro de administração pública, Luís Carlos do Nascimento é que me apresentou. Luís Carlos é um exímio violinista. Depois do Tio Joaquim ele foi um dos melhores que conheci. O Padre violeiro trazia novidades para aquela comunidade pobre de periferia. A MPB que não tocava nas rádios, era uma delas. Quinteto Violado, Almir Sater, Renato Teixeira, Grupo Tarancon, era alguns dos artistas que ele colecionava no vinil e tocava no violão.

Apesar de já ter conhecimento da existência do Cearense Fagner, não conhecia sua obra. Algumas canções que fizeram sucesso as conhecia, como Revelação por exemplo, um dos maiores sucessos de Fagner. Naquele ano de 79, a hoje extinta TV Tupi, promoveu um Festival de Música Popular. Gente de peso, lá participaram, como Caetano Veloso (Dona Culpa Ficou Solteira de Jorge Ben Jor), Gilberto Gil (com a Cor do Som interpretando Palco), Walter Franco com Canalha, gente nova como Kleiton e Kledir e sua Maria Fumaça, Oswaldo Montenegro e Bandolins e Arrigo Barnabé e a experimental Sabor de Veneno. Mas a vencedora foi Quem me levará sou eu, de Manduka e Dominguinhos com Raimundo Fagner na Interpretação.

Até então não prestava muito a atenção no conjunto da obra. Com o meu padrinho político e de casamento (ele o concelebrou), percebi as raízes nordestinas nas letras e no ritmo, bem como uma elaboração poética, digna dos Românticos Modernistas. Os versos que denunciavam a pobreza do sertanejo, eram os mesmos versos líricos de uma declaração de amor. A obra de Fagner sempre consagrava a letra de música com os versos de um poema. Foi assim de que se construiu Canteiros.

Feita nos anos de chumbo, Canteiros fala de tristeza, de perda e de saudades. Pode se adaptar esta toada sertaneja, ao nordestino confinado em cidade grande longe de sua amada ou á alguém no exílio forçado ou se escondendo de algo e remoendo lembranças de sua terra e sua amada. Ao mesmo tempo, confessa-se o narrador ser muito jovem, para ficar triste. Embora afirma que nada que se entrega lhe traz alegria.

E vai ser justamente com os poetas que Fagner vai ter dissabores. Canteiros foi lançada em 1973 no primeiro disco do compositor, o fantástico Manera Fru Fru Manera, que além desta, tinha clássicos, Ultimo Pau de Arara, Penas do Tiê, Sina e Mucuripe, parceria com Belchior, sucesso anos mais tarde na interpretação de Roberto Carlos. Canteiros foi denunciada pelas filhas da poetisa Cecilia Meirelles como um Plágio do cantor. Em 1979, Fagner admite judicialmente que baseou a letra da canção, no poema Marcha de Cecilia, em especial a primeira estrofe da letra. Leiam este texto que elucida a polêmica: http://migre.me/eRqzh .

No mesmo ano é relançado o primeiro disco, onde Canteiros é substituída por Cavalo Ferro, gravada em compacto simples. Fagner terá outros problemas onde é acusado de fraude.
Porém da mesma forma que me apaixonei pela canção ao ouvi-la no violão do meu amigo Luís, toda a vez que escuto Canteiros, não penso na polêmica e sim na beleza de seus versos. Vejam e ouçam esta Maravilha: http://migre.me/eRqHm .
 
CANTEIROS

Quando penso em você
fecho os olhos de saudade
tenho tido muita coisa
menos a felicidade
Correm os meus dedos longos
em versos tristes que invento
nem aquilo a que me entrego
já me dá contentamento
Pode ser até manhã
cedo, claro, feito o dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter do mato
um gosto de framboesa
pra correr entre os canteiros
e esconder minha tristeza
e eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza ...
deixemos de coisa, cuidemos da vida
senão chega a morte
ou coisa parecida
e nos arrasta moço
sem ter visto a vida
É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um toco sozinho ...
são as águas de março fechando o verão
é promessa de vida em nosso coração

sábado, 1 de junho de 2013

GITA

No finalzinho da década de 1970, dividi com um locutor de radio, do qual não me lembro mais o nome, a animação do sistema de som das Quermesses da Comunidade de Santa Luzia no JD. Vista Alegre em Limeira. A igreja ainda estava em construção, no alicerce. As festas eram realizadas, em cima da laje onde se construiria mais tarde o templo. Ficávamos em uma barraca, com uma iluminação bem fraquinha, uma mesa de som antiguíssima e um único microfone. Era o tempo do Vinil. Os membros da comunidade contribuíam, emprestando os bolachões. Eu mesmo levava os meus, que quase nunca eram tocados. Atendíamos pedidos e o que se tocava, eram musicas dos Bregas da época, meus discos eram considerados “cabeça” demais para o povão.

Mas entre os Lps, muitos deles riscados e quase sem condições de uso, estava os de Raul Seixas. O Maluco Beleza eram um dos mais tocados. Não vencíamos os pedidos para executar os mega sucessos do cara. Eu não prestava muito á atenção em Raul. Vi nele muito comercialismo, e pouco engajamento social. Eram os tempos das manifestações públicas contra a ditadura, tempos da Teologia da Libertação e eu já andava com Marx e Leonardo Boff debaixo do Braço.

Fui me ater á Raul um pouco mais tarde, quando estudei sua obra. Raul Seixas, tinha na mística, sua oração de vida. Suas canções não se furtavam a reclamar da condição da juventude, naqueles duros anos 70. Conseguia Raulzito unir, a ideia da transcendência, como um modo de vida alternativo. Foi esta concepção que o fez desagradar os militares. Com base na filosofia do ocultista Britânico  Aleister Crowley, que Raul Seixas criou a Sociedade Alternativa. Algo que o próprio Raul não sabia explicar o que seria de fato. A Sociedade lhe custou um exílio forçado ao Estados Unidos em 1974. Os militares não estavam gostando nada da coisa de uma cidade das Estrelas. Nome que Raul e Paulo Coelho dariam á Sociedade Alternativa e seria em Minas Geraes.

Ao retornar do Exílio  Raul e Paulo, vieram cheios de projetos, entre eles o novo disco. Aí surgiu, Gita, no final de 74. Este disco será definitivamente o boom da carreira do cantor e compositor. O mais vendido, com mais de 600mil cópias, tocou em todas rádios e programas de Televisão. A capa um primor. Raul Seixas de boina vermelha e guitarra em punho, em uma representação de um guerrilheiro em luta contra o regime. O LP é um desfile de Hits de Raul: Medo da Chuva, Trem das sete, Sociedade Alternativa e claro Gita.

Sem dúvida Gita é o maior e talvez uma das melhores letras do cara. Nós dos tempos das Quermesses, achávamos que Raul Seixas falava de Deus. De certa forma sim. Ela  é baseada no Bhagavad-Gitã, parte do Mahabarata, que seria a "bíblia" da religião hindu de Krishna. Um guerreiro hindu questiona quem seria o Krishna, o Deus da Religião Oriental.

Raul Seixas, mesmo após a sua morte atravessa como ídolo de antigas e novas gerações. Seus discos continuam a vender. Artistas Roqueiros em especial, continuam se influenciando por sua obra, seu estilo de juntar Luís Gonzaga com Elvis Presley. A mania dos Covers começou com os de Raul. Em vários eventos musicais, se ouve constantemente o Toca Raullllllllll.

Nós também vamos pedir um Toca Raul. Veja e ouça Gitã aqui: http://migre.me/ePdNh .

Gita
- Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando, foi justamente num sonho que Ele me falou:
Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado,
Não falo de amor quase nada,
Nem fico sorrindo ao teu lado.
Você pensa em mim toda hora.
Me come, me cospe, me deixa.
Talvez você não entenda,
Mas hoje eu vou lhe mostrar.
Eu sou a luz das estrelas;
Eu sou a cor do luar;
Eu sou as coisas da vida;
Eu sou o medo de amar.
Eu sou o medo do fraco;
A força da imaginação;
O blefe do jogador;
Eu sou!... Eu fui!... Eu vou!...
Gita! Gita! Gita!
Gita! Gita!
Eu sou o seu sacrifício;
A placa de contra-mão;
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição.
Eu sou a vela que acende;
Eu sou a luz que se apaga;
Eu sou a beira do abismo;
Eu sou o tudo e o nada.
Por que você me pergunta?
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra,
Do fogo, da água e do ar!
Você me tem todo dia,
Mas não sabe se é bom ou ruim.
Mas saiba que eu estou em você,
Mas você não está em mim.
Das telhas eu sou o telhado;
A pesca do pescador;
A letra "A" tem meu nome;
Dos sonhos eu sou o amor.
Eu sou a dona de casa
Nos pegue pagues do mundo;
Eu sou a mão do carrasco;
Sou raso, largo, profundo.
Gita! Gita! Gita!
Gita! Gita!
Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão;
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão.
Eu!
Mas eu sou o amargo da língua,
A mãe, o pai e o avô;
O filho que ainda não veio;
O início, o fim e o meio.
O início, o fim e o meio.
Eu sou o início,
O fim e o meio.
Eu sou o início
O fim e o meio.




quinta-feira, 30 de maio de 2013

SONHO IMPOSSIVEL

Caetano Veloso em seu livro auto biográfico, Verdade Tropical de 1997, trabalha em vários capítulos seu amor e admiração por sua irmã, Maria Bethânia. Mais nova que ele, foi Caetano que a incentivou a cantar. Foi o próprio que a estimulou a descobrir no teatro, as performances dramáticas que a cantora vai adotar em seus Shows. Que alias como diz o artista e Vereador de Limeira, José Farid Zaine são verdadeiros espetáculos de poesia.

A primeira incursão de Bethânia, foi exatamente nas artes cênicas. Na Bahia já tinha participado em vários espetáculos, emprestando sua voz, para textos como Boca de Ouro de Nelson Rodrigues. Mas vai ser no Show Manifesto Opinião, no Rio de Janeiro, que a irmã de Caetano vai se apresentar para o Brasil. Substituindo Nara Leão, que se afastou por motivos de saúde, Bethânia se junta ao cantor do nordeste João do Vale e ao sambista dos morros cariocas e canta em 1965, “Carcará pega, mata e come”.

A capacidade da cantora, em interpretar canções, com fortes elementos teatrais é algo que atinge a alma, faz todos os sentidos humanos virem a tona. Não tive ainda o privilégio de ver ao vivo, Maria Bethânia. Invejo o mesmo Farid, por ter não só assistido a um Show, mas a de ter feito uma canção “Mulher que Canta”, que esta no CD do Grupo Avena “Línguas”. Bethânia também fez parte de meu imaginário juvenil. A ouvia muito nas rádios nos anos 70, principalmente na radio Tupi do Rio.

Sonho Impossível, esta no disco “Chico Buarque & Bethânia ao Vivo”. O LP é resultado do Show de 1975 em temporada na famosa casa de espetáculos do Canecão do Rio de Janeiro. Show inclusive de enorme sucesso. Maria Bethânia se junto a Chico, outro amante do Teatro que já tinha uma relação estreita com o palco, escrevendo não só canções, mas Histórias, como Calabar, Gota d’agua e outras.

A canção fez parte da trilha de “O Homem de la Mancha”, uma versão de peça da Broadway de 1966, em parceria com Ruy Guerra. Foi a primeira de Chico fazendo versões. O espetáculo é de 1972, mas só gravado no Show com Bethânia. Eram os tempos de Ditadura, censura prévia, torturas, amigos sumindo, depoimentos no Dops, e gente indo direto para o Galeão. O ritmo uma balada, a letra uma primazia, que parece coisa de Dom Quixote, Utopia ou Sonho mesmo. A letra exatamente uma leitura fiel daqueles tempos, que a esperança parecia ser impossível.

Em 2010, escrevi um esquete para homenagear o Professor e amigo Joaquim Lazari, no qual incluí esta canção no encerramento do espetáculo.
Abaixo a letra magnifica de chico e o link com a interpretação de Bethânia: http://migre.me/eNsBW .


Sonho Impossível

Chico Buarque

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

          

terça-feira, 28 de maio de 2013

MARIA, MARIA

Nos inicio dos Anos 80, participei com cantor de uma Banda intitulada GLAVDES. A sigla era o nome de cada integrante do grupo, todos da Pastoral da Juventude da Igreja de Santa Luzia, em Limeira. O G de Geraldo meu segundo nome, LA de Laurita, a mais nova do grupo, V de Vicente, o mais velho e único músico para valer, D de Dario e de Donizete, o primeiro no Triangulo, o segundo no Vocal, E, de Edson e S de Solange. Eram dois violões, um atabaque e um triangulo. Mesmos instrumentos que usávamos para o coral da comunidade. Formamos a Banda para tocar MPB, o ritmo que adorávamos, eu tão a muito tempo.

O GLAVDES até que teve vida longa, uns três anos. Show mesmo uns dois, entre eles na Quermesse da comunidade. Mas o que realmente impactou, foi nossa apresentação em 1981, no evento organizado pela Pastoral da Juventude da Diocese, que a cada dia uma comunidade apresentava um numero cultural. Lotou o ginásio Vô Lucatto, muitos Jovens, amigos, parentes, dançaram e cantaram nosso repertório. Não havia canção comercial ou romântica. Era os tempos de canções com mensagens políticas ou de raízes, como baião. Maria, Maria estava no check List.

Boa parte do repertório, talvez todo ele, fui eu quem escolheu. Esta era uma de minhas favoritas. Cantávamos esta musica nas missas da comunidade, nas festinhas da juventude, no meio fio das calçadas. Identificávamos, sua letra a mãe de Jesus Cristo, mas também, a todas as mulheres pobres deste País. Cantávamos a todo pulmão. A letra é muito forte. Trata-se de uma homenagem do Bituca (apelido de Milton), a sua mãe biológica, que ao sentir que não tinha condições de cria-lo em função da miséria, o deixou com seus patrões (ela era empregada doméstica), do Rio de Janeiro, que o adota-lo.

Maria, Maria, é um hino ás mulheres que na vida são verdadeiras guerreiras heroínas de suas famílias. Lutando contra as adversidades da vida, as Marias de Milton Nascimento, o fazem com raça, garra e graça. Conheci tantas e conheço varias destas mulheres, que para proteger os seus, não se esmorece, enfrenta todas as dificuldades com esperança. São Mulheres anônimas, que não fazem questão alguma de status, brilho ou prêmio. Fazem da luta, sua profissão de fé.

Maria, Maria, foi gravada pela primeira vez no disco Manifesto Clube da Esquina 2, um álbum duplo com a participação da turma de Minas e de convidados, como Elis Regina e Chico Buarque. O LP é de 1978, mas a música foi feita para o Espetáculo do mesmo nome, o primeiro do Grupo Corpo em 1976. As músicas do espetáculo, juntamente com o ultimo trem, foi lançado em CD apenas em 2004.

Maria, Maria, obteve varias regravações inclusive Internacionais, como Mercedes Sosa e Sarah Vaughan. Clic aqui e veja e ouça o autor cantando esta pérola. http://migre.me/eLBz6 .

Maria, Maria
Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta…
Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que rir
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta…
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria…
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida….
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria…
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida….
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah!
Hei!!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Hei! Hei! Hei! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!…
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria…
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida….
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah!
Hei!!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Hei! Hei! Hei! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!…


  

domingo, 26 de maio de 2013

EU SOU APENAS UM RAPAZ LATINO AMERICANO

Sempre gostei de ir em bancas de Jornal, para garimpar publicações de musica, livros e cultura em geral. A banca IV Centenário, ao lado do relógio da praça Toledo de Barros, em Limeira, é minha favorita. Seu chico o dono da banca, me chamava pelo nome. Hoje quase não apareço por lá, mas repito o ritual de passar os olhos ou folhear revistas sobre o assunto na Banca de meu bairro. Foi em uma destas passagens pela IV Centenário, em 1976, que tive contato com a Revista Violão & Guitarra.

A publicação, trazia canções cifradas para os instrumentos que davam titulo a revista. Ela é um clássico do gênero. Conheço muita gente, músicos de qualidade que aprenderam a tocar musica através das notas musicais do periódico. Não me lembro, se era mensal ou semanal o numero da revista. Meu interesse era em primeiro lugar, conhecer letra de musicas que ouvia nas rádios e segundo um desejo de aprender a tocar violão. Uma das maiores preguiças de minha vida, é aprender a tocar. Não tenho paciência para sala de aula. Por fim, estes eram motivos.

Não tínhamos grana para comprar discos, e pouco que ganhava de meu pai, gostava de comprar as revistas. Um dos números trazia Belchior na capa, com casaco de peles, sorrindo e um boné na cabeça. O bigodão estava lá, com suas canções e uma delas era Eu Sou apenas um Rapaz Latino Americano. Belchior como compositor já era consagrado. Elis Regina e Vanusa já o tinha gravado e feito sucesso com suas canções: Como Nossos Pais, Velha Roupa Colorida, Elis e Paralelas com a Vanusa.

Mas foi Eu Sou Apenas um Rapaz, responsável para que o Brasil, conhece-se não só o brilhante compositor, mas o cantor. Voz grossa e grave, Belchior emplacou a canção nos Top 10, 05 e 01, das paradas de sucesso. Me lembro que antes de ir para a escola, estudava no Trajano Camargo naquele ano de 1976, na sexta serie, passei na banca e comprei o numero da Revista. Ao sair da escola, chovia muito e ao chegar no ponto de ônibus, onde hoje é a agencia da caixa econômica federal da Praça Toledo de Barros, não aguentei, tirei a revista da mochila e mesmo debaixo de chuva, fui direto ler a letra de Eu sou Apenas.

A letra é mais uma que coloca as angustias de um autor com seu cotidiano, de ditadura, de um povo pobre e de um país amordaçado. Já disse que Belchior é um compositor que melhor relata o intimo do Latino Americano. Na canção ele contesta Caetano Veloso e Gil, por conta da Música Tudo é Divino Tudo é Maravilhoso. Apesar da letra dos baianos, apresentarem o espirito da juventude da época, de protestar contra os desmandos do regime e ao mesmo tempo fazerem a ode ao estilo Hippie e psicodélico, Belchior naqueles anos 70, discorda de que tudo era maravilhoso.

Em 2010 me juntei ao Professor e Músico Claudio Corrêa e criamos o projeto A Palo Seco, uma banda para tocar canções de Belchior e com composições próprias trabalhar seu estilo. Tivemos vida curta, um Show e um Festival. Mas um dia a gente retoma o projeto, pois as novas gerações precisam conhecer este fantástico artista, da alma das Américas. Eu Sou Apenas Um Rapaz Latino Americano, esta no disco Alucinação de 1976.

Eu sou apenas um rapaz latino americano

Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes e vindo do interior

Mas trago na cabeça uma canção do rádio
Em que um antigo compositor baiano me dizia
Tudo é divino, tudo é maravilhoso

Tenho ouvido muitos discos, conversando com pessoas
Caminhado o meu caminho, papo o som dentro da noite
E não tenho um amigo sequer que ainda acredite nisso não
Tudo muda, e com toda a razão

Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes e vindo do interior

Mas sei que tudo é proibido, aliás, eu queria dizer que tudo é permitido
Até beijar você no escuro do cinema quando ninguém nos vê

Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Som, palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém

Mas não se preocupe, meu amigo com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção
A vida realmente é diferente quer dizer, ao vivo é muito pior

Eu sou apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco
Por favor não saque a arma no saloon, eu sou apenas um cantor

Mas se depois de cantar você ainda quiser me atirar
Mate-me logo à tarde, às três que à noite eu tenho compromisso
E não posso faltar por causa de você

Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes e vindo do interior

Mas sei, sei que nada é divino
Nada, nada é maravilhoso
Nada, nada é secreto

Nada, nada é misterioso não

quinta-feira, 23 de maio de 2013

OVELHA NEGRA


OVELHA NEGRA
A Revista Intervalo, que tinha um formato muito próximo do de bolso, colorida na capa e no miolo, foi para mim como já afirmei nesta serie uma fonte de conhecimentos de musica Brasileira. Folheando um dos números no inicio dos anos 70, vi a foto de uma loirinha vestida com uma túnica estilo noviça rebelde e segurando uma flor. Era Rita Lee, então vocalista da maior banda de Rock do Brasil de todos os tempos, os Mutantes.

Fiquei interessado e fui a busca de informações dela e do grupo. Totalmente influenciados pelo Rock Psicodélico, os irmãos Dias e Rita fizeram História no Rock e na MPB. Recentemente assisti o documentário “Uma Noite em 67”, sobre o famoso Festival da Virada. Os Mutantes, junto com Gilberto Gil apresentaram ao mundo a possibilidade de fundir guitarras elétricas ao Berimbau e a uma orquestra sinfônica. Nascia a Tropicália de Gil que neste Festival acompanhado dos Mutantes cantava Domingo no Parque e Caetano Veloso.

Os Mutantes eram pura experimentação. Da Tropicália para a psicodélia, depois para o Rock Sinfônico. Rita parecia nos meados dos setenta, voos solos, formulas mais simples de musica, até um pouco comercial e compor mais. Ela deixa os Mutantes e envereda para a carreira individual. Faz três discos antes de Fruto Proibido. Conquista espaço nas Rádios e programas de auditório e populares na TV. Emplaca alguns sucessos como José e Menino Bonito.  

Mas o estouro vem mesmo com Fruto Proibido, o segundo com a Banda Tutti Fruti. A Banda que tinha em Luis Sergio Carlini, seu líder, começou em 1971, como Coqueiro Verde. Tocando em bares do Bairro de Pompéia e na onda das drogas lisérgicas da época, o grupo muda para Lisergia. Ao conhecer Rita, a loirinha não gostava do nome da Banda que passa a ser de apoio da Cantora. O nome do Show de 1974, é que vai se encaixar na nominação da Banda.

Vai ser Ovelha Negra, o grande sucesso deste disco, que terá ainda os clássicos, Agora Só Falta Você de Rita com Carlini e uma das três na parceria com o bruxo Paulo Coelho Esse Tal de Roque Enrow. Os arranjos são de Carlini e quase todo Blues Rock. Rita assina quase todas as canções, e Ovelha é uma das que ela fez sozinha para o disco.

O conteúdo, o que vai marcar a carreira de Rita Lee, o cotidiano de cada tempo vivido por ela. O conflito familiar da menina rebelde, é a tônica de Ovelha Negra. A cantava no meio fio das calçadas com os amigos e nas festinhas onde rolava MPB. A Música foi ainda tema da segunda versão de Mulheres de Areia na TV Globo. Link para o vídeo da canção: http://migre.me/eH6Qm .
Ovelha negra
Levava uma vida sossegada
Gostava de sombra
E água fresca
Meu Deus!
Quanto tempo eu passei
Sem saber!
Uh! Uh!...
Foi quando meu pai
Me disse:
"Filha, você é a Ovelha Negra
Da família"
Agora é hora de você assumir
Uh! Uh! E sumir!...
Baby Baby
Não adianta chamar
Quando alguém está perdido
Procurando se encontrar
Baby Baby
Não vale a pena esperar
Oh! Não!
Tire isso da cabeça
Ponha o resto no lugar
Ah! Ah! Ah! Ah!
Tchu! Tchu! Tchu! Tchu!
Não!
Oh! Oh! Ah!
Tchu! Tchu! Ah! Ah!...
Levava uma vida sossegada
Gostava de sombra
E água fresca
Meu Deus!
Quanto tempo eu passei
Sem saber!
Han!! Han!...
Foi quando meu pai
Me disse:
"Filha, você é a Ovelha Negra
Da família"
Agora é hora de você assumir
Uh! Uh! E sumir!...
Baby Baby
Não adianta chamar
Quando alguém está perdido
Procurando se encontrar
Baby Baby
Não vale a pena esperar
Oh! Não!
Tire isso da cabeça
Ponha o resto no lugar
Ah! Ah! Ah! Ah!
Tchu! Tchu! Tchu! Tchu!
Não!
(Ovelha Negra da Família!)
Tchu! Tchu! Tchu!
Não! Vai sumir!...