segunda-feira, 10 de junho de 2013

TIGRESA

Em 1978, eu e o Brasil inteiro assistindo uma das melhores audiências de novelas da TV Globo. Escrita por Gilberto Braga, Dancing Days, traduzia aquele final de anos 70. Momento da abertura lenta e gradual, iniciada por Geisel, retomada das lutas sociais, entre elas a eclosão das greves do ABC. Foi o ano da volta dos exilados, da Anistia mais ou menos ampla. A censura aos meios de comunicação e as artes já não eram mais tão brutas e violentas. Já se respirava um pouco mais. As reuniões de oposição e protesto ainda eram reprimidas mas não com a intensidade no pós AI5. Lembro de meus primeiros contatos com a Teologia da Libertação, e com as lutas por Democracia no Brasil.

O enredo da novela, trabalha um drama pessoal. Sonia Braga encarnando a personagem principal, é Júlia, recém saída da cadeia por atropelar um assaltante de banco. Volta e tenta ficar perto da filha que vive com a irmã uma socialite, preconceituosa ao extremo. Para não atingir o Status da família da mana, Julia esconde sua identidade e histórico de ex presidiaria da filha e de todos. Roteiro próprio daqueles tempos, a novela atingi o sucesso, não só pela trama de choros e tragédias, mas pela atmosfera da época. A juventude da novela, curte seu enredo, na famosa discoteca Dancing Days, com a trilha daquele tempo, dance music, funk e soul.

Alias a trilha sonora é de arrebentar. Entre as internacionais, tem Macho Man do Vilage People, Santa Esmeralda e Commodores, só para ficar com algumas. Na trilha Nacional, Luiz Wagner, Lady Zú e petardos da MPB, como Jorge Ben Jor, Rita Lee, Nara Leão Gal Costa que canta Tigresa tema de Júlia e outros. Mas foi a música de abertura que estorará nas paradas de sucesso. A faixa Dancig Days, com as Frenéticas. Me perguntava mais quem são?. As seis mulheres lindas que vao formar este grupo de musica pop e dançante, eram mais uma do produtor Nelson Motta, proprietário da Dancing Days, já citada aqui. Elas eram garçonete da boate onde vips e gente da Burguesia Carioca frequentava. Em um determinado momento, elas abandonavam as mesas e iam ao palco cantar.

Foi nesta boate e neste clima de festa, que Caetano Veloso, se inspirou para escrever Tigresa. Segundo ele, via mulheres maravilhosas dançarem na pista da casa de espetáculos, e surgia assim a imagem de uma canção sensual e em homenagem a uma delas. A escolhida, claro Sonia Braga. Assim nasceu uma das músicas mais sexuais da carreira de Caetano. Houve um tempo em que tinha a informação, de que a Tigresa, se tratava de um travesti. Até porque falar de sexo em meio a ditadura já era um desafio, e se seria maior ainda se o personagem fosse um homossexual.

Tigresa foi gravada pela primeira vez no disco Caras&Bocas, de Gal Costa, em 1977. Ouça este Jazz de preferencia com seu bem: http://migre.me/eXm2Z .


Tigresa

Caetano Veloso

Uma tigresa de unhas
Negras e íris cor de mel.
Uma mulher, uma beleza
Que me aconteceu.
Esfregando a pele de ouro marrom
Do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel.
Enquanto os pelos dessa
Deusa tremem ao vento ateu,
Ela me conta, sem certeza,
Tudo o que viveu:
Que gostava de política em mil
Novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancin? Days.
Ela me conta que era atriz
E trabalhou no Hair.
Com alguns homens foi feliz,
Com outros foi mulher.
Que tem muito ódio no coração,
Que tem dado muito amor,
Espalhado muito prazer e muita dor.
Mas ela ao mesmo tempo diz
Que tudo vai mudar,
Porque ela vai ser o que quis
Inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz,
Vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão.
As garras da felina
Me marcaram o coração,
Mas as besteiras de menina
Que ela disse, não.
E eu corri pra o violão num lamento
E a manhã nasceu azul.
Como é bom poder tocar um instrumento.



sábado, 8 de junho de 2013

NÃO CHORES MAIS (No Woman, No Cry)

Gilberto Gil esta para a música Brasileira, como os Beatles estão para a o Rock e o Pop. A capacidade do artista, em prever o futuro por intermédio de sua arte é algo raro, digno de um Deus Grego, com direito a misticismo e magia. Gil é para mim um visionário, consegue aos escrever uma canção, enxergar mil anos luz a frente de todos. Foi assim quando ouviu João Gilberto e Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, e com Caetano Veloso, criou a Tropicália, a verdadeira Geleia Brasileira. Foi assim também quando previu ao voltar do exílio  em 1972, a pos modernidade dos século XXI, com Expresso 2222. Ou foi também em 1997, quando a gente ainda usava apenas o Word e se comunicava o mais rápido por fac-símile, ele já cantava pela Internet.

Dono de uma personalidade aberta a todos os ritmos e sons, não se acabrunhou em juntar guitarra elétrica, com berimbau e sinfonia de cordas. Do Pop ao Jazz, da Bossa ao Iê, Iê, Gil não tem preconceitos ou formalização definida sobre música. Como ele a música é universal, não serve só para entretenimento ou relaxar a alma. Serve para refletir o presente com um olho no futuro. Um cientista social e filósofo, ser ter academia, o Baiano, como ele mesmo diz, é a síntese da tese e da Anti Tese de uma sociedade em profunda e constante transmudação. Karl Marx puro.

No meios dos anos 70, Gilberto Gil já refeito do Exilio imposto pelos militares e altamente integrado a cena politica e musical, continuou a surpreender do Oiapoque ao Chuí. Gil inicia uma Trilogia em 1975, com Refazenda, Trilogia esta que vai ter a alcunha de RE. Totalmente antenado com a conjuntura do País, o disco com uma tendência rítmica caída para o Sertanejo, com Toadas, Forrós, Chotes entrelaçada com o Pop e o peso das Guitarras, percorre a temática do êxodo rural, provocado pela industrialização e o latifúndio no Campo. 

Na sequencia, como que umbilicalmente ligados, apresenta o LP Refavela de 1977. A cidade grande como temário, Gilberto Gil, vai denunciar as contradições das metrópoles, cheias de arranhas céus e empinhada de favelas e miséria. O Funk se mistura ao samba, em um tempo em que o ritmo dos Negros da América do Norte não tinha vez na MPB.

E aí chegamos á Realce. O  disco é de 1979, é o fim da Trilogia do RE. O disco surgiu um ano antes, quando da participação no Festival de Arte Negra na Nigéria. Gilberto Gil, manteve o contato com o mundo pop daqueles tempos e em especial com a Dance Music, que será o ritmo predominante no LP e o Reggae. Um disco cheio de Hits, como a faixa titulo com suas luzes e cores, Toda Menina Baiana, Se eu quiser falar com Deus, Marina uma releitura dançante da toada de Dorival Caymmi e claro Não Chores Mais.

O compositor já conhecia o ritmo da Jamaica e tinha Bob Marley como uma de suas referencias máximas para a criação. Não chores Mais é a versão que Gil fez para o Reggae de Marley. É a leitura de cenário de um tempo de cala te boca, de torturas, de gente sumindo e ao mesmo tempo de lembrar a contra cultura de uma juventude que subvertia a ordem através do comportamento. Cantei muito No Woman No Cry, no meio das calçadas, nas reuniões da comunidade de Jovens, nas greves e Manifestações Populares. Uma canção forte, uma balada para dançar de rosto colado, mas para lamentar os 21 anos de Ditadura. Leia aqui a letra comentada: http://migre.me/eVwgJ .

Veja a canção aqui e acompanhe a letra: http://migre.me/eVwip .

Não Chore Mais (No Woman, No Cry)
No Woman, No Cry
No Woman, No Cry
No Woman, No Cry
No Woman, No Cry...
Bem que eu me lembro
Da gente sentado ali
Na grama do aterro, sob o sol
Ob-observando hipócritas
Disfarçados, rondando ao redor...
Amigos presos
Amigos sumindo assim
Prá nunca mais
Tais recordações
Retratos do mal em si
Melhor é deixar prá trás...
Não, não chore mais
Não, não chore mais
Oh! Oh!
Não, não chore mais
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Não, não chore mais
Hê! Hê!...
Bem que eu me lembro
Da gente sentava ali
Na grama do aterro, sob o céu
Ob-observando estrelas
Junto à fogueirinha de papel...
Quentar o frio
Requentar o pão
E comer com você
Os pés, de manhã, pisar o chão
Eu sei a barra de viver...
Mas, se Deus quiser!
Tudo, tudo, tudo vai dar pé
Tudo, tudo, tudo vai dar pé
Tudo, tudo, tudo vai dar pé
Tudo, tudo, tudo vai dar pé
Tudo, tudo, tudo vai dar pé
Tudo, tudo, tudo vai dar pé...
No Woman, No Cry
No Woman, No Cry
No Woman, No Cry
Uh!
Uh! Uh!...
Não, não chore mais
Menina não chore assim!
Não, não chore mais
Oh! Oh! Oh!
No Woman, No Cry
No Woman, No Cry
Não, não chore mais
Não chore assim
Não, não chore mais
Hê! Hê!




quarta-feira, 5 de junho de 2013

PENAS DO TIÊ


Nara Leão é para mim uma incógnita. Sua voz fraquinha e seu jeito de cantar baixinho, explode em mim vários sentimentos. Se pensar no técnico diria que não gosto, as vezes até tem um que de desafinado. Alias a quem diga que Tom Jobim se inspirou nela para conceber o clássico “Desafinado”. Mas o que mais me encantava nela era tradução que ela dava nas canções.

Podia ser uma bossa nova, considerada no inicio como canção de apartamento, em função de que o grupo que vai criar o “movimento”, tinha a casa de Nara como local para a apresentação das novidades. Podia ser uma de Protesto como Opinião ou Cacará, letras fortes, mas que Nara Leão as cantava baixinho, ou uma Romântica como Além do Horizonte de Roberto e Erasmo Carlos.


Como cantoras de sua extirpe Nara, transformava o simples em poesia cantada. Era lindo vê-la cantar suave. Quando alguns anos atrás, Fernanda Takai, do Pato Fú, gravou seu primeiro trabalho solo, foi músicas de Nara Leão, que ela cantou. Nelson Motta, foi quem sugeriu a Takai que grava-se Nara. Dizia ele pela identificação da voz, o baixinho, o suave e ao mesmo tempo profundo. Ouvi Nara pela primeira em uma coletânea da qual não me lembro mais. (Era uma canção infantil, Pof o Dragão Mágico, uma versão feita pelo então naquele momento compositor Renato Teixeira, da musica Puff, the Magic Dragon).


Alias Nara Leão antes de Elis Regina, já lançava novos compositores, era sua sina. Iniciou-se lá no Apartamento, onde apresentou para os já adultos Tom Jobim, Vinicius de Moraes, garotos talentosos, entre eles Roberto Menescal e Carlos Lira, que estavam aprendendo a batida de um tal João Gilberto. De musa da Bossa Nova, Nara foi para a canção de Protesto e já em primeiro disco, lançou um Nordestino João do Vale e um sambista de Morro Zé Keti.
Bom, meu ultimo foi de uma canção de Raimundo Fagner, do LP Manera Frufru Manera de 1973, depois relançado em 1979. 

Foi nos acordes do Violão do então Padre Luís Carlos do Nascimento, da comunidade de Santa Luzia, que ouvi outra preciosidade deste disco. Penas do Tiê, que no disco aparece como retirado do folclore, mas em alguns textos, de autoria de Luís Gonzaga. Esta canção de amor, fala de um pássaro. O Tiê, que no Nordeste ele é conhecido como Tiê Sangue ou Sangue de Boi, por conta de sua Plumagem Vermelha. No Sudeste e Sul, o Tiê é preto, em São Paulo é foguinho Preto. Suas penas são pretinhas, bem pretinhas.

A referencia ao Tiê é o seu canto que faz o sertanejo se deliciar com as coisas da Natureza e fazer uma ode ao seu Amor. Nara Leão canta ao lado de Fagner, esta linda musica. Sussurrei ela varias vezes para alguns de meus amores.

Mas para quem quer lembrar de seu Amor, com os sons da Natureza e ao mesmo tempo matar saudades de Nara Leão Click aqui: http://migre.me/eT6uq


Penas do Tiê



Vocês já viram lá na mata a cantoria,
Da passarada
Quando vai anoitecer,
E já ouviram o canto triste da araponga,
Anunciando que na terra vai chover,
Já experimentaram guabiroba bem madura,
Já viram as tardes quando vai anoitecer,
E já sentiram das planícies orvalhadas

O cheiro doce das frutinhas muçambe
Pois meu amor tem um pouquinho
Disso tudo
E tem na boca a cor das penas do tiê,
Quando ele canta os passarinhos ficam mudos
Sabe quem
é o meu amor
Ele é você você você...





segunda-feira, 3 de junho de 2013

CANTEIROS

Conheci Raimundo Fagner em 1979, alias sua música. O Padre de minha comunidade Católica, da Igreja de Santa Luzia, hoje meu companheiro de administração pública, Luís Carlos do Nascimento é que me apresentou. Luís Carlos é um exímio violinista. Depois do Tio Joaquim ele foi um dos melhores que conheci. O Padre violeiro trazia novidades para aquela comunidade pobre de periferia. A MPB que não tocava nas rádios, era uma delas. Quinteto Violado, Almir Sater, Renato Teixeira, Grupo Tarancon, era alguns dos artistas que ele colecionava no vinil e tocava no violão.

Apesar de já ter conhecimento da existência do Cearense Fagner, não conhecia sua obra. Algumas canções que fizeram sucesso as conhecia, como Revelação por exemplo, um dos maiores sucessos de Fagner. Naquele ano de 79, a hoje extinta TV Tupi, promoveu um Festival de Música Popular. Gente de peso, lá participaram, como Caetano Veloso (Dona Culpa Ficou Solteira de Jorge Ben Jor), Gilberto Gil (com a Cor do Som interpretando Palco), Walter Franco com Canalha, gente nova como Kleiton e Kledir e sua Maria Fumaça, Oswaldo Montenegro e Bandolins e Arrigo Barnabé e a experimental Sabor de Veneno. Mas a vencedora foi Quem me levará sou eu, de Manduka e Dominguinhos com Raimundo Fagner na Interpretação.

Até então não prestava muito a atenção no conjunto da obra. Com o meu padrinho político e de casamento (ele o concelebrou), percebi as raízes nordestinas nas letras e no ritmo, bem como uma elaboração poética, digna dos Românticos Modernistas. Os versos que denunciavam a pobreza do sertanejo, eram os mesmos versos líricos de uma declaração de amor. A obra de Fagner sempre consagrava a letra de música com os versos de um poema. Foi assim de que se construiu Canteiros.

Feita nos anos de chumbo, Canteiros fala de tristeza, de perda e de saudades. Pode se adaptar esta toada sertaneja, ao nordestino confinado em cidade grande longe de sua amada ou á alguém no exílio forçado ou se escondendo de algo e remoendo lembranças de sua terra e sua amada. Ao mesmo tempo, confessa-se o narrador ser muito jovem, para ficar triste. Embora afirma que nada que se entrega lhe traz alegria.

E vai ser justamente com os poetas que Fagner vai ter dissabores. Canteiros foi lançada em 1973 no primeiro disco do compositor, o fantástico Manera Fru Fru Manera, que além desta, tinha clássicos, Ultimo Pau de Arara, Penas do Tiê, Sina e Mucuripe, parceria com Belchior, sucesso anos mais tarde na interpretação de Roberto Carlos. Canteiros foi denunciada pelas filhas da poetisa Cecilia Meirelles como um Plágio do cantor. Em 1979, Fagner admite judicialmente que baseou a letra da canção, no poema Marcha de Cecilia, em especial a primeira estrofe da letra. Leiam este texto que elucida a polêmica: http://migre.me/eRqzh .

No mesmo ano é relançado o primeiro disco, onde Canteiros é substituída por Cavalo Ferro, gravada em compacto simples. Fagner terá outros problemas onde é acusado de fraude.
Porém da mesma forma que me apaixonei pela canção ao ouvi-la no violão do meu amigo Luís, toda a vez que escuto Canteiros, não penso na polêmica e sim na beleza de seus versos. Vejam e ouçam esta Maravilha: http://migre.me/eRqHm .
 
CANTEIROS

Quando penso em você
fecho os olhos de saudade
tenho tido muita coisa
menos a felicidade
Correm os meus dedos longos
em versos tristes que invento
nem aquilo a que me entrego
já me dá contentamento
Pode ser até manhã
cedo, claro, feito o dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter do mato
um gosto de framboesa
pra correr entre os canteiros
e esconder minha tristeza
e eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza ...
deixemos de coisa, cuidemos da vida
senão chega a morte
ou coisa parecida
e nos arrasta moço
sem ter visto a vida
É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um toco sozinho ...
são as águas de março fechando o verão
é promessa de vida em nosso coração

sábado, 1 de junho de 2013

GITA

No finalzinho da década de 1970, dividi com um locutor de radio, do qual não me lembro mais o nome, a animação do sistema de som das Quermesses da Comunidade de Santa Luzia no JD. Vista Alegre em Limeira. A igreja ainda estava em construção, no alicerce. As festas eram realizadas, em cima da laje onde se construiria mais tarde o templo. Ficávamos em uma barraca, com uma iluminação bem fraquinha, uma mesa de som antiguíssima e um único microfone. Era o tempo do Vinil. Os membros da comunidade contribuíam, emprestando os bolachões. Eu mesmo levava os meus, que quase nunca eram tocados. Atendíamos pedidos e o que se tocava, eram musicas dos Bregas da época, meus discos eram considerados “cabeça” demais para o povão.

Mas entre os Lps, muitos deles riscados e quase sem condições de uso, estava os de Raul Seixas. O Maluco Beleza eram um dos mais tocados. Não vencíamos os pedidos para executar os mega sucessos do cara. Eu não prestava muito á atenção em Raul. Vi nele muito comercialismo, e pouco engajamento social. Eram os tempos das manifestações públicas contra a ditadura, tempos da Teologia da Libertação e eu já andava com Marx e Leonardo Boff debaixo do Braço.

Fui me ater á Raul um pouco mais tarde, quando estudei sua obra. Raul Seixas, tinha na mística, sua oração de vida. Suas canções não se furtavam a reclamar da condição da juventude, naqueles duros anos 70. Conseguia Raulzito unir, a ideia da transcendência, como um modo de vida alternativo. Foi esta concepção que o fez desagradar os militares. Com base na filosofia do ocultista Britânico  Aleister Crowley, que Raul Seixas criou a Sociedade Alternativa. Algo que o próprio Raul não sabia explicar o que seria de fato. A Sociedade lhe custou um exílio forçado ao Estados Unidos em 1974. Os militares não estavam gostando nada da coisa de uma cidade das Estrelas. Nome que Raul e Paulo Coelho dariam á Sociedade Alternativa e seria em Minas Geraes.

Ao retornar do Exílio  Raul e Paulo, vieram cheios de projetos, entre eles o novo disco. Aí surgiu, Gita, no final de 74. Este disco será definitivamente o boom da carreira do cantor e compositor. O mais vendido, com mais de 600mil cópias, tocou em todas rádios e programas de Televisão. A capa um primor. Raul Seixas de boina vermelha e guitarra em punho, em uma representação de um guerrilheiro em luta contra o regime. O LP é um desfile de Hits de Raul: Medo da Chuva, Trem das sete, Sociedade Alternativa e claro Gita.

Sem dúvida Gita é o maior e talvez uma das melhores letras do cara. Nós dos tempos das Quermesses, achávamos que Raul Seixas falava de Deus. De certa forma sim. Ela  é baseada no Bhagavad-Gitã, parte do Mahabarata, que seria a "bíblia" da religião hindu de Krishna. Um guerreiro hindu questiona quem seria o Krishna, o Deus da Religião Oriental.

Raul Seixas, mesmo após a sua morte atravessa como ídolo de antigas e novas gerações. Seus discos continuam a vender. Artistas Roqueiros em especial, continuam se influenciando por sua obra, seu estilo de juntar Luís Gonzaga com Elvis Presley. A mania dos Covers começou com os de Raul. Em vários eventos musicais, se ouve constantemente o Toca Raullllllllll.

Nós também vamos pedir um Toca Raul. Veja e ouça Gitã aqui: http://migre.me/ePdNh .

Gita
- Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando, foi justamente num sonho que Ele me falou:
Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado,
Não falo de amor quase nada,
Nem fico sorrindo ao teu lado.
Você pensa em mim toda hora.
Me come, me cospe, me deixa.
Talvez você não entenda,
Mas hoje eu vou lhe mostrar.
Eu sou a luz das estrelas;
Eu sou a cor do luar;
Eu sou as coisas da vida;
Eu sou o medo de amar.
Eu sou o medo do fraco;
A força da imaginação;
O blefe do jogador;
Eu sou!... Eu fui!... Eu vou!...
Gita! Gita! Gita!
Gita! Gita!
Eu sou o seu sacrifício;
A placa de contra-mão;
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição.
Eu sou a vela que acende;
Eu sou a luz que se apaga;
Eu sou a beira do abismo;
Eu sou o tudo e o nada.
Por que você me pergunta?
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra,
Do fogo, da água e do ar!
Você me tem todo dia,
Mas não sabe se é bom ou ruim.
Mas saiba que eu estou em você,
Mas você não está em mim.
Das telhas eu sou o telhado;
A pesca do pescador;
A letra "A" tem meu nome;
Dos sonhos eu sou o amor.
Eu sou a dona de casa
Nos pegue pagues do mundo;
Eu sou a mão do carrasco;
Sou raso, largo, profundo.
Gita! Gita! Gita!
Gita! Gita!
Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão;
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão.
Eu!
Mas eu sou o amargo da língua,
A mãe, o pai e o avô;
O filho que ainda não veio;
O início, o fim e o meio.
O início, o fim e o meio.
Eu sou o início,
O fim e o meio.
Eu sou o início
O fim e o meio.




quinta-feira, 30 de maio de 2013

SONHO IMPOSSIVEL

Caetano Veloso em seu livro auto biográfico, Verdade Tropical de 1997, trabalha em vários capítulos seu amor e admiração por sua irmã, Maria Bethânia. Mais nova que ele, foi Caetano que a incentivou a cantar. Foi o próprio que a estimulou a descobrir no teatro, as performances dramáticas que a cantora vai adotar em seus Shows. Que alias como diz o artista e Vereador de Limeira, José Farid Zaine são verdadeiros espetáculos de poesia.

A primeira incursão de Bethânia, foi exatamente nas artes cênicas. Na Bahia já tinha participado em vários espetáculos, emprestando sua voz, para textos como Boca de Ouro de Nelson Rodrigues. Mas vai ser no Show Manifesto Opinião, no Rio de Janeiro, que a irmã de Caetano vai se apresentar para o Brasil. Substituindo Nara Leão, que se afastou por motivos de saúde, Bethânia se junta ao cantor do nordeste João do Vale e ao sambista dos morros cariocas e canta em 1965, “Carcará pega, mata e come”.

A capacidade da cantora, em interpretar canções, com fortes elementos teatrais é algo que atinge a alma, faz todos os sentidos humanos virem a tona. Não tive ainda o privilégio de ver ao vivo, Maria Bethânia. Invejo o mesmo Farid, por ter não só assistido a um Show, mas a de ter feito uma canção “Mulher que Canta”, que esta no CD do Grupo Avena “Línguas”. Bethânia também fez parte de meu imaginário juvenil. A ouvia muito nas rádios nos anos 70, principalmente na radio Tupi do Rio.

Sonho Impossível, esta no disco “Chico Buarque & Bethânia ao Vivo”. O LP é resultado do Show de 1975 em temporada na famosa casa de espetáculos do Canecão do Rio de Janeiro. Show inclusive de enorme sucesso. Maria Bethânia se junto a Chico, outro amante do Teatro que já tinha uma relação estreita com o palco, escrevendo não só canções, mas Histórias, como Calabar, Gota d’agua e outras.

A canção fez parte da trilha de “O Homem de la Mancha”, uma versão de peça da Broadway de 1966, em parceria com Ruy Guerra. Foi a primeira de Chico fazendo versões. O espetáculo é de 1972, mas só gravado no Show com Bethânia. Eram os tempos de Ditadura, censura prévia, torturas, amigos sumindo, depoimentos no Dops, e gente indo direto para o Galeão. O ritmo uma balada, a letra uma primazia, que parece coisa de Dom Quixote, Utopia ou Sonho mesmo. A letra exatamente uma leitura fiel daqueles tempos, que a esperança parecia ser impossível.

Em 2010, escrevi um esquete para homenagear o Professor e amigo Joaquim Lazari, no qual incluí esta canção no encerramento do espetáculo.
Abaixo a letra magnifica de chico e o link com a interpretação de Bethânia: http://migre.me/eNsBW .


Sonho Impossível

Chico Buarque

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

          

terça-feira, 28 de maio de 2013

MARIA, MARIA

Nos inicio dos Anos 80, participei com cantor de uma Banda intitulada GLAVDES. A sigla era o nome de cada integrante do grupo, todos da Pastoral da Juventude da Igreja de Santa Luzia, em Limeira. O G de Geraldo meu segundo nome, LA de Laurita, a mais nova do grupo, V de Vicente, o mais velho e único músico para valer, D de Dario e de Donizete, o primeiro no Triangulo, o segundo no Vocal, E, de Edson e S de Solange. Eram dois violões, um atabaque e um triangulo. Mesmos instrumentos que usávamos para o coral da comunidade. Formamos a Banda para tocar MPB, o ritmo que adorávamos, eu tão a muito tempo.

O GLAVDES até que teve vida longa, uns três anos. Show mesmo uns dois, entre eles na Quermesse da comunidade. Mas o que realmente impactou, foi nossa apresentação em 1981, no evento organizado pela Pastoral da Juventude da Diocese, que a cada dia uma comunidade apresentava um numero cultural. Lotou o ginásio Vô Lucatto, muitos Jovens, amigos, parentes, dançaram e cantaram nosso repertório. Não havia canção comercial ou romântica. Era os tempos de canções com mensagens políticas ou de raízes, como baião. Maria, Maria estava no check List.

Boa parte do repertório, talvez todo ele, fui eu quem escolheu. Esta era uma de minhas favoritas. Cantávamos esta musica nas missas da comunidade, nas festinhas da juventude, no meio fio das calçadas. Identificávamos, sua letra a mãe de Jesus Cristo, mas também, a todas as mulheres pobres deste País. Cantávamos a todo pulmão. A letra é muito forte. Trata-se de uma homenagem do Bituca (apelido de Milton), a sua mãe biológica, que ao sentir que não tinha condições de cria-lo em função da miséria, o deixou com seus patrões (ela era empregada doméstica), do Rio de Janeiro, que o adota-lo.

Maria, Maria, é um hino ás mulheres que na vida são verdadeiras guerreiras heroínas de suas famílias. Lutando contra as adversidades da vida, as Marias de Milton Nascimento, o fazem com raça, garra e graça. Conheci tantas e conheço varias destas mulheres, que para proteger os seus, não se esmorece, enfrenta todas as dificuldades com esperança. São Mulheres anônimas, que não fazem questão alguma de status, brilho ou prêmio. Fazem da luta, sua profissão de fé.

Maria, Maria, foi gravada pela primeira vez no disco Manifesto Clube da Esquina 2, um álbum duplo com a participação da turma de Minas e de convidados, como Elis Regina e Chico Buarque. O LP é de 1978, mas a música foi feita para o Espetáculo do mesmo nome, o primeiro do Grupo Corpo em 1976. As músicas do espetáculo, juntamente com o ultimo trem, foi lançado em CD apenas em 2004.

Maria, Maria, obteve varias regravações inclusive Internacionais, como Mercedes Sosa e Sarah Vaughan. Clic aqui e veja e ouça o autor cantando esta pérola. http://migre.me/eLBz6 .

Maria, Maria
Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta…
Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que rir
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta…
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria…
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida….
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria…
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida….
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah!
Hei!!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Hei! Hei! Hei! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!…
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria…
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida….
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah!
Hei!!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Hei! Hei! Hei! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!…